sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eu queria ser um segredo

O desconhecido é sempre um segredo que alguém não revelou. E quem não é curioso o bastante para se interessar por um segredo? E se esse segredo for seu e nem você mesmo conheça o conteúdo?

Metade da minha vida utilizei umas máscaras para conseguir algumas coisas: amigos, um emprego, uma garota, um real, uma hora de atenção, enfim... usava todo aquele arsenal de personalidades que um ser humano pode utilizar, as famosas "máscaras". Famosas máscaras que ninguém gosta de admitir que usa.

Fechei o livro deixando o marcador de páginas na 46, faltava ainda mais da metade pra terminar de lê-lo. Fui atender meu celular e recebi um convite inusitado em pleno início da madrugada. Topei!
Quinta pra sexta-feira, coloquei minha fantasia de baladeiro e saí com a Laura, amiga que saio desde que tenho uns 14 anos, passei na casa dela e fomos a um bar jogar sinuca.


Lá encontramos alguns amigos meus e amigos e amigas dela. A maioria, por sinal, já se conheciam, só eu não sabia desse universo de amizades em comum. A princípio foi divertido.
Com o passar das horas e das bitucas arremessadas na sarjeta, minha fantasia de baladeiro foi se desfazendo e eu fui colocando a minha fantasia de conquistador. O porque, ao certo, não sei. A troca foi suave, mas rápida, poucos amigos próximos perceberam.
Ainda na área de fumantes, pendurei um sorriso falso abaixo do meu nariz para me aproximar dela. Ela me olhou três ou quatro vezes seguidas com aquele aspecto: "Você vai vir aqui perto mesmo? Ah.. por favor, não!"... e eu senti que ela também pendurava um sorriso falso quando a abordei e iniciei um papo qualquer.

Chequei no meu banco de dados um assunto que possivelmente pudesse surpreender, impressionar... hum.... em vão. Todos os assuntos que eu dominava, ela também dominava e quando ela arriscava algum papo diferente, eu sabia do que ela estava falando. Isso se tornou engraçado. Como um bom estrategista, aproveitei esse gancho. Tínhamos muitas coisas em comum. Conversamos durante quase uma hora sem interrupções -somente para encher o copo-.
Eu só percebi que não estava mais com a fantasia de conquistador quando eu quase avancei para beijá-la. Minha ideia inicial era que acontecesse o contrário. Foi quando decidi ir embora. Talvez a fantasia dela de conquistadora tenha sido mais elaborada. Vazei.

Logo pela manhã do dia seguinte, voltando do centro de São Caetano, encontrei minha amiga Laura no semáforo da Av. Goiás com a Amazonas. Na verdade ela me encontrou. Ela estava voltando do curso de inglês a caminho do ponto de ônibus. Quando parei no semáforo, tomei um puta susto com ela batendo no vidro: 
- Ae cabeção, me dá uma carona!

Ela entrou no meu carro sorrindo e perguntando com uma fantasia de ironia:

- Pra onde você foi ontem que nem me deu tchau?
- Ué... eu fui pra casa, por que?
- Sei.. pra casa... fala a verdade!
- Fui pra casa mesmo... sério. Eu estava com dor de cabeça de ficar lá.
- Hum. Tenho um recado pra você.

Passou pela minha cabeça que algum amigo meu quisesse falar comigo, sei lá, mas foi um recado estranho. Eu não estava fantasiado de 'Cara Preparado Pra Receber Um Recado' e deixei minha face responder o quão feliz e confuso fiquei com a notícia.
- Ihh... pelo jeito você gostou dela também, né?! - Laura me disse.

"Malditas expressões corporais! Logo eu que fico analisando todo mundo deixo escapar uma dessas! Fraco!" - pensei.
- Aham... normal. Achei ela legal. - respondi.

Contei algumas coisas que conversamos, ponderando nas palavras, vestindo um verdadeiro traje 'mediador', de maneira que ela deixava escapar algumas informações que eu julgava importantes para minha, então, quase conquista.

Quando chegava perto da casa de Laurinha, ela pede para eu encostar o carro porque quer me contar uma coisa. Senti que ela vestia uma dramaturga de segunda. Suspense!

- Edu, o que você tem?
- Como assim?
- Sério, você fica sempre na defensiva. Se abre comigo. Eu sempre falo tudo pra você, sinto que não é recíproco. Espero que não se ofenda, mas eu gosto muito de você e acho, sinceramente, que você também tenha uma consideração por mim.
- La, de boa, não tenho nada, sério. Adoro você, óbvio, mas não sei do que você está falando. (fantasiado de sínico)
- Tem um tempo que queria ter esse papo com você. Do que você tem medo? Por que se esconde tanto dentro de si mesmo?
... fiz uma pausa tenebrosa. Ela havia quebrado mais um disfarce meu e eu não conseguia pensar em nada pra virar o jogo. Há algum tempo eu vinha percebendo que minhas máscaras ficavam cada vez mais fixas em mim. Arrisquei:
- Então, Laurinha, não sei porque você tem essa impressão. Eu conto as coisas da minha vida sim, só que não são do modo como você conta ou, talvez, do modo que você gostaria de ouvir.
- Hum... - silêncio -. Beleza. Podemos ir nessa.

Ela se voltou pra frente e colocou o cinto esperando que eu ligasse o carro. Óbvio que percebi a decepção dela com a minha resposta "grosseira"... eu diria "direta". Fomos em silêncio até a casa dela.

- Tó. Esse é o telefone da Ariane. Ela falou pra você ligar pra ela. Desculpe se te incomodei.
- Tranquilo. Valeu.

Arranquei com o carro e vi, pelo retrovisor, ela sentando em frente sua casa, fitando meu carro. Não entendi porque não tinha entrado pra casa... então resolvi dar a volta no quarteirão pra ver se estava tudo bem mesmo.

Passando novamente pela casa dela, estava somente o material do inglês. Achei estranho. Olhei pra todos os lados da rua, fui atrás da caçamba de uma obra que acontecia na rua dela e nada também. Dei uma olhada entre os tapumes da construção, mas estavam bem fechados. Peguei seu material e toquei a campainha uma vez. Duas vezes. Pela terceira vez e.... desisti. Aguardei uns cinco minutos na rua pra ver se ela aparecia e nada... Pensei em ligar pra ela, mas, pra variar, meu celular havia ficado embaixo da minha cama recarregando a bateria.

Eu sempre ando com um cartão telefônico para certos imprevistos, porém eu não sabia o telefone dela decor. Procurei rapidamente alguma coisa no material dela, vi que tinha um livro do mesmo autor do livro que eu lia, mas não achei mais nada. Foi quando veio o 'click!': "Vou ligar pra Ariane, explicar a situação e pedir o telefone da Laura. Vou parecer ridículo, mas dane-se. Vou com a fantasia de 'não me importo com nada' e é por uma causa boa."

- Ariane?
- Alô? Ela mesma, quem é?
- Oi Ariane, é o Eduardo... amigo da Laura, sabe?
- Eduardo...? Eduardo...?
"Pra cima de mim não! hahahaha" - Pensei. Eu sabia que ela sabia quem era, lancei:
- Ah.. Nada não... Deixa pra lá, então. Eu~
- Não! Não! O Eduardo de ontem do bar, né?! Da sinuca?
- Isso.. eu mesmo. (risada maléfica interior: Muaahahaha! I´m win!)

Ela me contou que acordou bem, não tinha notícias da Laura, mas que tentaria ligar pra ela.
Ariane estava morando na casa de uma tia solteira, aqui em São Caetano mesmo, ambas dariam uma festa naquela noite e me convidou. Disse que convidaria Laurinha também.

Passei a tarde inteira dormindo me recuperando da noite anterior e pensando como a Laura tinha esquecido o material do inglês dela. Nem me passou pela cabeça qualquer desgraça. Sempre acho que as pessoas são mais esquecidas, burras, do que passíveis de um ato de violência... até porque notícia de desgraça voa.

Dormi muito. Acordei quase oito da noite. Jantei. Tomei banho. Me troquei. Aí liguei pra Laurinha pra passar na casa dela pra buscá-la. Não me atendeu. Liguei pra Ariane que disse ter falado com a Laura e ela já estava a caminho. Justo! Peguei meu carro, liguei o GPS. Passei no mercado. Comprei umas bebidas e fui pra casa da Ariane. Com uma fantasia de quem iria se dar bem naquela noite, desliguei meu celular pra nenhum amigo vir atrás de mim.

Chegando no prédio da Ariane, toquei o interfone:
- Boa noite. Vou no apartamento 92.
- Seu nome?
- Eduardo.
- Ah sim. Pode subir...

"Caramba! Será que tem uma lista de convidados?" - pensei

Toquei a campainha e aguardei. Ariane veio me receber. Mais linda ainda agora, eu comigo sóbrio. Me convidou pra entrar.

- Ué. Tudo bem? Cadê o pessoal, a Laurinha?
- A Laurinha ligou desmarcando e o resto do pessoal não veio.
- E sua tia? 
- O ex-marido dela ligou querendo conversar... e ela, capachona, foi.
- Então~
- ~Então só veio você. Por mim não tem problema. Por você tem? - ela dizendo, já sabendo minha resposta, se virava em direção a cozinha.

Fixaram na minha mente aqueles olhos claros realçados por aqueles cabelos ruivos... Afe! Não tive escolha. Tomamos uns dois drinks. Conversamos bastante. Ela desligou a TV. Não colocou nenhuma música. Abriu a cortina da sala pra luz da lua entrar e sentirmos uma leve brisa. As luzes da sala estavam acesas. Aliás, da casa inteira estava. Nesse cenário claro e estranho, atípico para um romance, ela foi, vagarosamente, despindo todas as minhas fantasias. Rebatia todas os meus questionamentos. Quebrava mais uma e outra máscara minha. Eu tirava lentamente sua roupa de timidez também. Ela levantava para tirar os meus sapatos de superioridade. Abri botão por botão de sua calça de ansiedade. Ela arrancou com violência minha camisa hipócrita. E fomos nos descobrindo.

Ela me fez contar coisas que eu não sabia. Eu queria ser um segredo e ela me revelou.

Logo pela manhã fui até a cozinha preparar um café da manhã pra gente, sem fantasia. No canto da cozinha, perto da fruteira vi os livros da Laura jogados no chão, estranhei, pois haviam ficado no meu carro. Eu tinha certeza!

Quando voltei pro quarto com a bandeija na mão, curioso pra saber dos livros, Ariane estava sorrindo e pulando na cama me convidando pra ir com ela. Sorrimos, nos abraçamos, pulamos, cansamos e dormimos de novo. Exaustos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Isso é só para poetas

Esses dias estava com vontade de escrever uma poesia. Comecei a falar de amor. O clichê dos poetas. Então acho que comecei bem.

Me arrisquei a viajar por dizeres entre aspas, onomatopéias e metáforas nunca antes mencionadas, sentimentalidades fúteis ou não.

Escolhi uma música - aleatoriamente - pra fazer plano de fundo para minha inspiração,

“Verá que, mesmo de longe, tua lixa não me rasga mais.
Teus nós só eu sei desatar. Desiluda-se.
Tua vontade faz querer me encontrar pra sempre. O outro pra sempre.”

Mas não consegui poetizar nosso amor tipo B. Daqueles que todos sonham em não ter.
De acordo comigo, amar é querer somar e dividir, nunca multiplicar ou subtrair. E era demais! Os dois! Os exageros e os meandros de conduta que tínhamos a cada náufrago. E como afundou!

“Afundei-me em cada sorriso teu.
Afoguei-me no teu suor.
Me sufoquei nos teus cabelos
E morri nas nossas lágrimas.”

Bem assim mesmo, nos teus pros seus, dos ‘–me’ pro ‘me–‘.

Mas nada da poesia aparecer! Eu insistia em redigi-la, compô-la, papealizá-la, enletrá-la...
Parei de justificá-la. Seria como equacionar o amor. E esse amor, de fato, não tem solutiva, não tem razão, não tem sentido, só tem um X.

E esse X é de errado.

mas não deu certo, obvio. Não sou um poeta.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sonho, pesadelo e a realidade

Os anos passam rápido demais, mas as semanas demoram muito.
Foi um, dois ou três anos querendo e sonhando com a cumplicidade, imaginando ideais compartilhados. Como é bom viver nos sonhos, né?! Ideologia.
Você já viveu aquela sensação de sorrir ao ver um sorriso? Sorrir tanto de achar que seu peito não vai aguentar, de seus olhos se arregalarem de tanta satisfação? Suas mãos suarem levemente? E tudo por causa de um sorriso compartilhado? E quando o sorriso é acompanhado de um abraço? Aquele abraço que faz o mundo parar, perder a noção do tempo, suas pernas tremerem, esquentar, seus batimentos cardíacos superarem sua respiração. Sabe?

Foi só um pesadelo. Calma.

Dei um pulo da cama querendo saber o que eu tinha sonhado. Estava ofegante e preocupado. Abri a janela pra luz entrar e sentei na cama. Fiquei atrapalhado de sono e com a cara amassada. Fechei os olhos e busquei entender o que tinha acontecido.
Um porta retrato. Um céu azul. Um vestido branco. Um par de óculos escuros. Um abraço molhado. Sal. Vento. Era só o que eu conseguia lembrar. Olhei para o relógio e já estava atrasado para ir trabalhar.

Tomei um banho rápido. Minhas roupas já estavam no mancebo do meu quarto. Peguei as chaves e fui trabalhar sem tomar café.
No caminho, durante o trânsito, olhava - com mais curiosidade do que de costume - os carros que passavam ao meu lado na busca de algum sinal que conflitasse com o meu sonho - supersticioso, ou não?rs - . Passou uma mulher, com seus 40 e poucos anos, se maqueando no espelho retrovisor interno, um caminhoneiro comendo um pão francês com algum recheio, um casal cantando e dezenas de sonolentos e curiosos como eu.
Atrasado por atrasado, resolvi tomar um café na padaria (e um lanche de queijo branco quente).

No balcão reparei a agilidade dos atendentes e a alegria com que trabalhavam, sempre sorrindo e brincando um com os outros.
Do outro lado do balcão sentou uma moça loira, cabelos enrolados, vestida socialmente, maqueada ao tom do rosa mais claro que existe, bonita. E só. Pediu um chá gelado e um lanche natural.

Ela olhava a TV com ar de recriminação ao ver o sensacinoalismo que tratavam as enchentes e crimes pela cidade. Talvez tivesse notado que eu estava a observar seus movimentos, ficou olhando para seu copo de uma maneira que eu sabia que ela conseguia me ver. E ficou assim durante alguns segundos e eu imóvel também.

Nesse momento entrou um garoto negro, com uns 12 anos, camisa do flamengo e um pacote de balas de uvas na mão. Ofereceu de mesa em mesa, de balcão a balcão. Quando chegou em mim o garoto pediu para eu pagar-lhe um lanche.

"- Um bauru e uma coca cola para o menino aqui." - pedi.

O guri, Rafael, morava em um bairro próximo. Me contou que sua mãe havia falecido há pouco mais de 3 meses e que ele e mais dois irmãos precisavam trabalhar para não acabar como o pai - morto por policiais em uma fuga-.

Nesse bate papo rápido notei que a loira ficava a contemplar nossa conversa. Quando olhei pra ela, ela fez sinal de 'sim' com a cabeça e se aproximou.

- Oi menino. Tudo bem? Vi que o papo de vocês estava bom, desculpe atrapalhar. Mas me interessei pelo que conversaram. Meu nome é Hellen e trabalho em um programa de TV e gostaria de saber mais sobre você.

Quando terminei meu lanche, o guri já não estava mais por perto.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Planeta Terra da garoa

Está também cansado de ver os desastres que a chuva está causando? Têm visto as massivas reportagens com jornalistas dizendo e gritando: "A Natureza está revoltada!"? Seus vizinhos colocam a culpa em S. Pedro? É culpa do aquecimento global? Do Governo?

Agora, olha só. O nível da água mundial sempre foi e sempre será o mesmo. Não é lógico? (Desconsiderando a hipótese de importar água de outros planetas.)

1 litro de água evaporado será um litro de água sempre. A diferença é que tiramos a água do solo e não damos espaço pra ela voltar. Cavamos até dezenas de metros para alcançá-la e construímos tudo em volta com concreto e asfalto. Não precisa ser muito inteligente pra entender isso, né?!

Criamos estradas, derrubamos as árvores, construímos barreiras, afunilamos e canalizamos rios. E consumimos água. Muita água! Temos mais pessoas do que 50 anos atrás. Consumimos mais água do que 50 anos atrás e vedamos o chão, o não acontecia 50 anos atrás.

Não adianta criarmos piscinões, aumentarmos a largura dos rios ou colocarmos toalhas nas nuvens. Esqueceram do ditado “tudo que sobe, tem que descer”? Ah vá! É muita burrice.

A culpa não é de S. Pedro, nem da Natureza – ela sempre foi assim: aquece, evapora e chove.- “Ah! Mas agora tem o aquecimento global!” – vão dizer. Ou... “Evapora lá, mas chove aqui.”
Pergunto: Você vai comprar pão a pé ou de carro? Você pratica coleta seletiva? Tem e usa uma bicicleta para meio de transporte (não lazer). Utiliza bens reciclados? Sabe como reduzir poluentes do seu carro? Sabe como foi o processo de fabricação dessa calça que você está usando? Se não soube responder algumas dessas perguntas, a culpa das enchentes é sua. Você é um dos vilões do aquecimento global.

Acredito que com controle e planejamento do consumo, natalidade e progresso as coisas seriam diferentes.
Homem é bicho burro. Ele é culpado. Eu não acredito que tenha mais jeito de consertar. A água vai sim acabar com tudo. Ou melhor, nós vamos acabar conosco. E estamos avançando com esse processo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A merendeira

Eu sempre comi feito um dragão/ caminhoneiro e graças a essa minha habilidade estomacal e degustativa tenho um texto novo para o blog.

Quando estava no ensino fundamental não saia da cantina ou da copa, onde serviam a merenda, por nada. Geralmente eu era o primeiro a entrar e o último a sair, sempre antes e depois do sinal. Por essa minha infância bem regrada tenho essa pança cultivada com carinho.

Havia 3 portas nessa copa/ refeitório. Uma de entrada, outra de saída e uma que ficava atrás do balcão das merendeiras que dava para uma área restrita a funcionários.

Certa vez, em um dia de fome rotineira, ao tomar minha sexta caneca de leite com toddy acompanhado do décimo pão com manteiga, estava a apreciar a movimentação no refeitório quando aconteceu a coisa mais engraçada que já vi na vida. Um garoto arremessou sua caneca no balde que ficava ao lado da porta de saída. Era um balde pra isso mesmo, para deixar as canecas usadas. Porém a caneca deste jovem estava cheia ainda, metade caiu dentro do balde e metade voou no cabelo de uma menina. Hilário. Vergonhoso pra menina e pro jovem desatento, mas nenhum dos dois percebeu, o que tornou a cena ainda mais engraçada. Só não foi tão engraçado como o leite que escorria pelo meu nariz no meio do refeitório. Rindo sozinho. Alto. Quase cai no chão de dar risada, mas eu estava na quarta-série e não tinha moral alguma construída ainda. Como tinha visto o que eu vi, fui zombado pela escola inteira como o garoto que gorfou pelo nariz. Não achei engraçado.

Uma vez, nesse mesmo refeitório da escola, fiquei olhando a reação da galera ao ver o que tinha no cardápio do dia:

- Temos purê e carne moída. – disse a merendeira
- Affff, isso, de novo? Como alguém consegue comer essa ‘nhaca’?
- É o que temos pra hoje. – complementou a merendeira.

No momento, como sempre, achei muito engraçado e continuei olhando a reação do pessoal:
- O que tem hoje, tia?
- Temos purê e carne moída.
- Nossa. Pode colocar pra mim.
- Sim, é o que temos pra hoje.

Fiquei olhando o pessoal pedir, comer, outros saiam da fila, outros faziam cara de nojo, mas era o que tinha pro dia. Fui embora.

Hoje, após ler um texto do Charlie Chaplin “O DIA DE HOJE”, lembrei desse fato da merendeira.
“...Posso reclamar porque está chovendo
ou agradecer às águas por lavarem a poluição.
Posso ficar triste por não ter dinheiro
ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.
Posso reclamar sobre minha saúde
ou dar graças por estar vivo...”
O dia de hoje – Charlie Chaplin

O que você tem pra hoje, você pode mudar? É ruim ou bom, vai ignorar ou resolver, vai fugir ou enfrentar, vai querer o purê ou vai procurar outra comida, vai resolver o problema ou arranjar uma desculpa, vai sair pela tangente ou fazer cara de nojo?

Afinal, todo dia, só temos o purê e carne moída. Que tal?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Antes da luz acender

Pelas madrugadas anteriores, o frio intenso que cortava os lábios era o mesmo que cortava os corações e, de alguns, até confortava. Estranho conflito, em minha opinião.
Enquanto essas noites cortantes corriam pelo lado de fora das nossas vidas, nos cortávamos entre declarações e frases sinceras, machucantes e entregáveis. De certo as ideologias evidenciavam as brutais diferenças dos dois, mas um calor emanava em sincronia, amaciando todos os sentimentos de angústia, insegurança e desconfiança. Do que se trata, afinal? Acaso?

Nunca me considerei uma pessoa controladora, nem possessiva. Isso até ontem.
Foram muitas sinceridades trocadas, assuntos que acredito que poderiam ser facilmente evitados, melhorias sugeridas e raiva. Ódio, descontentamento, decepção, asco, rebeldia Eu quis estar no controle.
O sorriso e o olhar profundo mexiam com todos os meus sentidos, ela conseguia me controlar sem dizer uma palavra, sem fazer qualquer gesto, tudo com o “simples” emanar de calor.
Sem medir as conseqüências, o passado foi sendo jogado sem direcionamento um ao outro como se fosse possível controlar os sentimentos. Do que se trata, afinal?

É diferente de tudo o que eu já experimentei, singular. É certo e intenso. Crescente e dependente, da causa e do efeito. Um contrato sem cláusulas definidas com objetivos subentendidos. Sem certo e errado.
As luzes apagadas acendem a chama de que tudo vai dar certo, o clima estava criado e as nossas músicas tocavam sem parar. Todas elas. Eu não me lembro de nenhuma.
Que o calor não esfrie, que as músicas toquem, nos toque, a quem e quando for, que seus cabelos possam continuar dançando no meu peito, que sua voz seja música em todas as claves, todos os tons e que sua sinceridade seja estímulo aos nossos desejos, que tua pele continue neste tom e sabor meu.
Os cantos que poderiam ter sido nossos viraram retratos em memória, não me abraçam a tristeza e a solidão. O copo está cheio.

O escuro é a única testemunha da verdade vivenciada. Antes da luz acender, podíamos nos ver. Internamente. Interna a mente. A mente não mente. Pelo menos com o breu aceso.
Do que se trata, afinal?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

3 minutos no espelho

Lavei o rosto, as mãos e joguei uma água no cabelo. Não lembro se foi nessa ordem, mas fiz tudo isso.
Apoiei as duas mãos na pia, avancei meu corpo em direção ao espelho e me vi ridículo. Estava completamente bêbado.
Me diverti alguns segundos apagando e acendendo a luz, vendo minhas pupilas se dilatarem e se comprimirem. Acho que foram uns 3 minutos na frente do espelho.

Era mais uma festa universitária, todos aqueles futuros profissionais comemorando alguma coisa. Bebendo como se seus corpos fossem baldes de plástico, fumando como se fossem filtros super poderosos e outros cheirando sem a menor vergonha - o cangote de quem seja -. Continuava a me olhar no espelho, ridículo.
Bateram na porta algumas vezes, mas desistiram.
- Quem é você, cara?! O que você está fazendo?! - Me perguntaram.
- Porra bicho, to me divertindo! Você deveria fazer o mesmo do que ficar aí, se olhando que nem um fracassado.
- E que sucesso se tem absorvendo cachaça que nem uma esponja?
- Cala a boca! Você viu quantas minas estão lá dando sopa?
- Eu vi cara... são esponjosas como você.
Meu debate comigo mesmo foi ficando tenso até que eu dei um murro nele, em mim, sei lá. No espelho!

Ouviram o barulho dos cacos de vidro e da porcelana da pia, não medi a força do apoio e derrubei a pia também. Arrombaram a porta.
- Maluco, que porra é essa na sua mão?
- Não sei cara, eu escorreguei... é sangue, é vidro, é porcelana ...
- É vergonha e cachaça. - Alguém no caco de vidro respondeu pra mim.
Saí carregado do banheiro para a área da piscina, virei o centro das atenções. O DJ abaixou o volume e, quase que no ritmo, minha pressão abaixou junto.
Lembro dos meus amigos agaixados me ajudando -estavam pouca coisa menos bêbados que eu-, a cena estava em câmera lenta, eles davam alguns tapas no meu rosto, apertavam o meu braço, outros vieram ajudar e gritavam por uma ambulância, a minha respiração ficava cada vez mais lenta também, algumas pessoas riam da situação, eu não conseguia expressar o que eu estava querendo dizer, minha fala estava pesada, meus braços também, o sangue não chegou na piscina graças aos panos que me cercavam, algumas garrafas no chão - ao longe - pareciam querer participar da cerimônia, a ambulância não chegava e havia um pedaço de espelho no meu braço ainda. Fixei meu olhar nele.

O vidro refletia o céu azul. O dia estava lindo - e eu ridículo -, dia perfeito para uma festa na piscina. Vi poucas nuvens, não vi pássaros, nem aviões, nem o reflexo de ninguém, nem o meu próprio reflexo -eu não tinha mais nenhum-. Movimentaram meu braço de uma maneira que o espelho refletiu a luz do sol nos meus olhos, fiquei cego por alguns instantes e apaguei.

Acordei num carro de desconhecidos, diziam que me levariam ao hospital. Disseram que eram organizadores da festa, mas não lembro o nome deles. Chegamos. Ao sair do carro, apaguei novamente.

Lembro de sentir as pessoas a minha volta. Eu não conseguia abrir os olhos ou reagir qualquer movimento. Me sentia bem, queria dizer-lhes que eu estava bem:
- Ei galera!!! É zoeira!!! Ta tudo de boas!!!
Mas eu não consegui. Me concentrei, forcei para abrir os olhos e assustei com um espelho na minha cara. Na verdade não era bem um espelho, mas um vidro que cobria o meu rosto.
Me concentrei forte por três minutos e consegui levantar. Vi minha mãe aos prantos dizendo incessantemente:
- Meu filho, lindo.. lind... lin...
- Calma mãe, tá tudo bem! - e a abracei fortemente.
Ela permaneceu chorando e olhava fixamente para atrás de mim, pra minha cama. Perguntava a todos o que estava acontecendo, apenas balançavam a cabeça em movimento de negação triste, mas eu estava ótimo. Quando olhei para minha cama, me vi novamente, dessa vez não havia espelho algum.