terça-feira, 24 de março de 2009

É cada uma...

Eu trabalho no décimo andar de um prédio que tem 11.

O hall deste andar é simples e frio. Ao sair pro hall, há dois elevadores e no fim do corredor – que nem dá pra correr de tão pequeno –, ao lado esquerdo, tem uma porta grande que é o acesso às escadas internas do prédio, ao lado desta porta há duas janelas que dão visão para um outro imenso prédio comercial. Todos os dias eu paro uns cinco minutos pra tomar um café e pra admirar detalhadamente essa paisagem.

Ele é mais alto, mas nunca parei pra ver o quanto. Ele é ladrilhado em vários tons de azul claro e azul escuro. De longe não dá pra perceber isso, são como pixels que formam um único tom de azul.

As pessoas do prédio ao lado não se importam em baixarem sempre suas persianas e eu fico olhando todas as salas que eu consigo.

Tem um cara com um computador com uma tela de umas 40 polegadas, parece uma TV. Esse gosta de ver tudo grande.
Aquela tela é realmente bonita, sempre tem um mapa do google maps aberto ou um gráfico que nem imagino do que seja. Não dá pra ler.

Na janela de baixo tem uma menina linda que, por várias vezes, já a peguei segurando o ventilador de frente pra si balançando os cabelos por muito tempo, até não conseguir respirar. É engraçado. Uma graça, ainda vou conhecê-la. Tem uma faxineira, na mesma sala, que sempre derruba panos pela janela.
Na sala ao lado tem um cara que faz malabares com bolinhas de papel. Sozinho. Sem querer fazer graça pra ninguém. Quando comecei a trabalhar aqui ele fazia só com duas bolinhas, hoje já consegue com quatro e arrisca, de vez em quando, com cinco.

Nunca vi nenhum chefe dando uns catas na secretária ou um empregado vendo sacanagem na internet. Já vi comemorações de aniversário – confesso que até eu queria um pedaço daquele bolo – e já vi algumas discussões também.
Em dias de chuva alguns esquecem de fechar a janela e quando se dão conta já está tudo ensopado.

De vez em quando fico imaginando o que essas pessoas gostam de fazer quando não estão no trabalho. A menina do ventilador, por exemplo, com seus cabelos compridos ao vento, deve sonhar ser modelo. Ou pára-quedista? O malabarista talvez queira ser barman, trabalhar com artes circenses, ou não saiba nem o que ele deve fazer na empresa, quanto mais fora. A faxineira deve ter problemas demais e acaba se descuidando, derrubando tudo.

Tem um restaurante aqui na frente onde muitas pessoas destes prédios comerciais vão almoçar e é mais um lugar que eu gosto de ir. A comida é gostosa, a maioria das meninas também, as pessoas são bonitas, o ambiente é agradável e tem uma TV gigante passando Globo Esporte.

Eu fico olhando as pessoas.
Umas aparentam estarem preocupadas demais, ficam remexendo a comida, tomam o suco pela metade, as mãos não saem da testa e a gravata é afrouxada diversas vezes.
Outras dão risada de tudo, a ponto de quase não deixarem-me ouvir a TV ou a conversa do pessoal da mesa de trás.

Por falar nisso uma vez peguei essa galera falando de outras pessoas.
Falaram que o Fernando é viciado em filme pornô. O Julio cola tudo que sai de seu nariz embaixo da própria mesa e a Dona Geni, entendi ser a faxineira da empresa, disse que não limparia “aqueles coisos” por nada. A 'periguete' Fernanda saiu com dois no sábado, um a tarde e outro a noite. O Carlos veio duas vezes bêbado trabalhar na última semana, mas pelo menos fez o que tinha que fazer. Falaram do porteiro, que sempre lança uma cantada pra Isa. Comentaram que tem um cara no prédio vizinho que cada dia ta com um cabelo diferente. As vezes veste social, as vezes parece que acabou de acordar. É meio-loiro-meio-castanho-claro. Vive com uma mochila nas costas e encosta na janela todo dia pra tomar café e fica olhando pros andares de baixo fazendo comentários pra si mesmo. O cara não deve ter o que fazer.

Se tem uma coisa que eu odeio são pessoas bisbilhoteiras que ficam falando e vendo o que as outras pessoas fazem ou deixam de fazer. É cada uma...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Todo carnaval tem seu fim

Quem é que não gosta de carnaval? Mesmo que não goste dos desfiles e de toda algazarra, gosta do feriado. É oportuno falar deste momento de alegria, samba, curtição, azaração, festas, bebidas e crise.
Dizem que o Brasil só funciona depois do carnaval; que este então passe logo. Funcione.
Estou com uma sensação estranha de querer curtir, azarar, de querer passar, de torcer, de ficar confuso, de fazer contas e contas. Contas, essas sim adoram me azarar.
Sempre fugi de qualquer oportunidade ou curso de faculdade que pudesse ouvir a palavra “conta” e lá vou eu contar o quanto odeio fazer contas, cálculos e mais cálculos pra ver se o resultado será divisível por 30.
Dizem também que quanto mais se tem, mais se quer. Acho que essa afirmação tem 50% de verdade. Eu apenas mais quero, mas nunca tenho mais. É incrível o quanto mais água, maior é o bueiro.
Esse mês o aluguel vai ficar pro mês que vem, pois este tem a fatura do cartão de crédito que vem do mês passado. Ando vivendo num malabarismo de papéis, lápis, calculadoras, moedas e humor.
Que crise! Isso me faz lembrar de namoro, namoro é que tem crise. Eu não. Tinha.
Mas de nada vale ficar chorando as pitangas. Ainda tenho que ir à feira.
Hoje o texto é curto, assim como a minha verba. É pequeno, simples e direto, assim como o saldo da minha conta bancária. Hoje o texto está mais do que incompleto. Está.
Bom carnaval pra todo mundo!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O tempo, a chuva e o chafariz.

Era quinze de Abril.
Depois de uma noite mal dormida, um ‘ontem’ pior ainda, nós estávamos no banco do gramado do parque vendo os patos comendo a grama que estava invadindo o lago pela margem.
O reflexo da ponte, que cortava o lago, na água, era fantástico. Nesse momento os esguichos do lago, que faziam uns desenhos bonitos no ar, estavam desligados. Podíamos ver mais dois casais do outro lado fazendo a mesma coisa que nós, ouvíamos as risadas das crianças que andavam de bicicleta pelo parque, mas eram quase cobertas pelo barulho das árvores balançando.
Estava sol, mas estávamos à sombra. Não estava muito calor e o vento estava gostoso.
- No que você está pensando? – ela me perguntou
- Em nada, por quê?
- Depois de ontem, consegue não pensar em nada num lugar assim?
- Quer dizer algo? No que você está pensando?

Eu não estava pensando em nada mesmo, só estava curtindo o lugar onde estávamos. E do mais, achei que aquele assunto estava encerrado.
Nos “desabraçamos”, ela pediu para sentarmos um de frente pro outro. Ela segurou as minhas mãos, mediu cada parte do meu corpo e olhou pra mim fixamente. Durante uns 5 minutos. Em silêncio.

Nesses 5 minutos deu tempo de fazer uma retrospectiva desde quando havíamos nos conhecido. Fiquei olhando pro nada durante esse tempo.
No início eu não gostava muito dela, pra ser bem sincero eu tinha uma antipatia que nunca tive por ninguém. Garota mimada, que se acha, diz coisas meio sem nexo e nem era tão bonita assim quanto os outros diziam ser.
Eu não conseguia ficar no mesmo ambiente que ela. Ela chegava falando alto, abraçando todo mundo, - realmente ela era bem popular, nunca tinha ouvido alguém falar mal dela – e eu nunca gostava de nada que ela fazia. Pra mim ela era muito artificial. Um dia ela veio falar comigo:

- Ei... você não é o rapaz, amigo dos garotos daquela banda de rock?
- É.. Eu sou o “ R A P A Z ” amigo deles sim.
- Posso me sentar com você?
- Na verdade não, tenho ânsia só de ouvir a sua voz. – eu pensei – mas acabei dizendo:
- Pode, claro!

Encontramos-nos no Intermunicipal Circular - 154, no centro de São Paulo e por infelicidade minha, ela iria para o mesmo lugar que eu. Desceríamos na estação de São Caetano e, por mais uma maldição do destino, ela pegaria o mesmo ônibus que eu pra casa dela, e, se desgraça pouca é bobagem, falou que desceria depois de mim. Parecia que ia chover, mas no caminho não choveu e não pegamos muito trânsito, ainda bem!

- Vi você junto do pessoal da banda várias vezes, mas nunca fomos apresentados.
- É...
- Então, você os conhece da onde? Você toca algum instrumento? Nossa, eu adoro a banda deles! Comprei até um violão, mas acho muito difícil tocar. Você pelo jeito também gosta, né? Teve um baile que eu fui e eles tocaram, não sei se você estava, nossa! ...

Pelo amor de Deus, alguém costure a boca desse papagaio-humano!
Na minha vida eu já conheci garotas que gostam de falar, vendedoras de Yakult, Avon, Herbalife, vizinhas fofoqueiras e tias futriqueiras, mas gostar de falar que nem essa garota, eu nunca tinha visto igual.
Eu tinha acabado de almoçar, estava com sono. Minha cabeça estava quase explodindo a dela. Sabe quando as pessoas falam com você e você só responde “Aham”... “É?!” ... “Hum... poxa!”, mas na verdade você nem imagina do que ela está falando? Foi assim durante 35 minutos dos 40 que passamos no ônibus vindo pra São Caetano.

Na estação de São Caetano, tive certeza que desceria uns 5 pontos antes do meu pois não agüentaria tanto tempo com ela.

- Bla Bla bla... Bla bla bla... Bla bla bla...
- Humm... poxa!
- Bla Bla bla... Bla bla bla... Bla bla bla...
- É?!


Desci. Passava das 15:30h.
Ahh! Que alívio!
Viaturas policiais, as sirenes soavam como canções! Latidos, isso! Latam! Latam mais! Depois de descer daquele ônibus, descobri que adoro cães bravos, caminhões de lixo, buzinas e feira livre!

Então olhei para aqueles lábios falantes que já não diziam muita coisa havia um tempo e me aproximei. Eles estavam molhados, assim como seus olhos e o resto de seu rosto. Os esguichos do lado acabavam de ser ligados. Mas não pude chegar tão perto...

Andava já há uns 10 minutos, quando mudei de calçada e vi de longe, vindo em minha direção, uma moça. Pensei: “Que broto!" – e ri sozinho
Ela foi se aproximando e quando cheguei perto não acreditei:

- Ué ?! Não ia descer quase no ponto final? - perguntei
- Na verdade eu moro duas quadras da estação. Resolvi dar uma voltinha de ônibus... e o nosso papo estava tão bom! Daqui vou a pé mesmo.
- Humm...
- ...
- Bom, então ta...
- Ta... Então nos vemos por aí...
- É... Acho que sim...
- Tá...
- Ta... então tchau.
- Tchau...


Segui meu caminho e ela seguiu o dela, experimentei dar uma olhada pra trás, não sei por que. Ela fez a mesma coisa e me mandou um tchau de longe.

Mais à noite, como de praxe, fui acompanhar a banda dos meus amigos que tocariam num clube perto de casa. Senti, apesar de que era evidente, que a encontraria.
Quase uma da manhã, o salão estava lotado de pessoas, não havia ninguém sentado. Animação frenética, como sempre eram os shows deles. Eu estava com alguns amigos, que hoje, talvez, nem se lembrem de mim. Conversando, rindo, flertando, como acontece em qualquer outra festa.

- Ei... Pegou chuva? – me cutucaram perguntando.
- Não. Não peguei, por quê?
- Nossa! Depois que nos despedimos, acabei pegando uma rua errada quando ia pra casa. Dei uma volta enorme pra me encontrar e começou a chover. Passou um carro numa poça, me molhou toda, aí acabei tropeçando numa garrafa vermelha, acho que era de vinho, aí....
- Aí você se achou e chegou em casa, né? –
atravessei pra resumir
- Não... Você nem imagina... aí... quando eu achei que tinha me achado veio um cachorro...
- To ferrado! De novo. –
pensei.
Com aquela barulheira, acabamos indo “conversar” - entre aspas, porque só ela falava - lá fora do salão, perto das piscinas.
Durante nossa conversa vieram várias amigas e amigos dela que a procurava pelo salão e ela sempre dava um jeito de dispensá-los.
Ela me contou que seu cachorro chamava-se Thor, mas havia o deixado na chácara, pois era muito grande. Que sua avó morava no centro de SP, que sua fruta preferida era maçã, que a melhor professora dela foi a Dona Helena do pré-três, que sua cor preferida era amarela, que queria ter dois filhos, que comprou uma blusa verde, mas quando chegou em casa não gostou e foi trocar por uma branca no dia seguinte, que gostava de sorvete de flocos, que nunca havia repetido de ano, que não gostava de rock, que estava apaixonada por mim, que ?!

- Que?! – perguntei assustado
- É... faz um tempo que...

Ela olhou pra baixo e quando olhou pra mim de novo já veio me beijando.
E eu não impedi. Lógico! Era uma das garotas mais cobiçadas da época (meus amigos morreriam de inveja e as outras garotas, que eu queria um lance, ou sairiam comigo pra se promover – afinal eu beijei a garota mais popular, logo meu nome estaria aos ventos por aí – ou ficariam com raiva de mim, tem loca pra tudo), e o principal!!! Ela, me beijando, ficaria sem falar por um bom tempo.

Era quinze de abril, 3:45h da manhã, começava a chover e as gotas do chafariz nos molhava inteiros como naquela chuva 25 anos atrás. Chamamos as crianças que estavam andando de bicicleta, levantamos do banco, nos abraçamos e fomos pra casa.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Amor de verão

Ah.. o verão. Garotas bonitas andando de bikini pra lá e pra cá. Sons da moda “bombando” nos carros. Festas, bebedeiras, crianças com protetores solares na cara, catarrentas e tossindo em toda praia...

- Nossa! Me desculpa?! Não vi você. Eu estava distraída. Machucou? – ela
- Não.. não...
- Não machucou ou não me desculpa ? – ela sorrindo
- Não machucou...
- Qual é o seu nome?

Conheci uma das garotas mais lindas que já vi. E por ela eu confesso estar apaixonado, amando, iludido ou besta, que dá na mesma.

Estava calor nesta noite de quinta-feira, típica de verão, e eu sem nenhum compromisso. Era um daqueles raros dias que seus amigos querem fazer as mesmas coisas que você.
O Fernando passou em casa com o Lulo, Fábio, Biga e Hermano - o Vinicinhus disse que nos encontraria lá no Bar Aurora -. O Chileno disse que precisava estudar para a prova de Protética que teria dali oito semanas e não foi.
Carro abarrotado. Demos a tradicional passada no Extra pra fazer o esquenta e, já no caminho, percebíamos que a noite ia ser longa. Todo mundo animado, rindo de qualquer coisa, curtindo um som e o famoso pirata com coca.

O sol escaldante mal deixava eu pisar na areia mesmo com aquele vento fortíssimo que levava vários guarda-sóis pra lá e pra cá.
Vi uma mãe passando protetor no filho que chorava por um sorvete.
O “Tinkwinki” vendendo algodão doce devia estar derretendo dentro daquela sauna, assim como o “Pikachu”.

A cada farol fechado era uma gracinha lançada para o carro ao lado. - Daquelas coisas ridículas para quem vê e divertidíssimas para quem participa. -
Já passava das 23h e ainda não havíamos chegado ao Bar. Não estávamos nos importando com o horário esse dia, o Biga estava de férias, por isso ele foi.
Fernando deu umas buzinadas pra animar chegando no estacionamento.
Encontramos o Vinícius na fila já conversando com um pessoal, os cumprimentamos e, entre eles, havia uma menina linda de olhos claros e cabelos castanhos, mais ou menos 1,70, nem magra, nem gorda, branquinha, não estava muito maquiada, mas produzida para uma festa, menina engraçada, nada de falar alto ou ser muito além de simpática, totalmente ‘meu número’.

Eu sem nenhum guarda-sol, sem boné, só de regata, bermuda e chinelo e míseros dez reais no bolso para uma emergência.
Aquele sol me tostando e a galera na água. Ia entrar no mar de roupa, dinheiro e tudo mais, eu não estava agüentando.

A cada mudança de assunto, eu notava atentamente o olhar atento dela à todas bobagens que falávamos.
A fila andava e eu nem percebi que já estávamos na porta.
Ela, com suas amigas e amigos entraram. Nós nos viramos um pro outro e não precisamos dizer uma palavra para entender o que cada um estava pensando.
- Ééé, tem que ver isso ae...

Indo em direção ao mar acabei tropeçando num castelinho de areia ( castelinho modo de falar, por que aquilo não passava de uma montanha com janelas ) e começou uma choradeira.
- Buáá.. Buáááá.... Ahhhhhhhh!!!!
- 'Ahhhh!' Digo eu se não calarem a boca!!! (pensei com uma vergonhaeraiva daquelas 3 crianças pirracentas ).

Lá dentro, no Aurora, “me perdi” de todo mundo pra ver se a encontrava. Estava escuro, poucas luzes imitavam chamas de vela na parede, havia algumas TVs de plasma passando clipes, mas nesse momento estava passando uma entrevista com o Lulu Santos, tentei prestar atenção por 5 segundos, mas foquei na minha ‘caçada’. Decidi ir para o segundo andar onde disseram ter um cara com um violão. Subi dois lances de escada, desviei de um cara que não parava de vomitar, pedi ‘licença’ para um casal que estava se pegando, e daquele conhecido e tradicional trânsito na balada.

Eu até pensei em pedir desculpas por pisar naquele monte de areia, mas fiquei com tanta raiva que acabei por destruir tudo.
- Ei... o que você está fazendo? – uma mulher veio falando.
- O que parece que eu estou fazendo? – Eu perdi o controle e falei mais alto.
- Esse castelinho era do meu filho e dos meus sobrinhos, você não...

Foi quando percebi a mudança real do ambiente.
- “De segunda a segunda fico louco pra te ver. Quando eu te ligo, você quase nunca está, isso era outra coisa que eu queria te dizer. Não temos tempo, então melhor deixar pra lá...”

O cara com o violão chamava-se “Tales MPB”, pude ver pelo banner branco, simples, que estava pendurado ao lado de seu amplificador. Enquanto ele tocava “Carolina” eu procurava a “Garota sem nome” – puta vacilo esquecer/não perguntar o nome de uma menina, mas elas sabem que é difícil pra gente, né?! -.
Estava cansando de andar, peguei uma coca, sentei um pouco, ouvi mais umas três músicas e desci novamente pra encontrar os vermes dos meus amigos.
Já passavam das 2h e a noite animada e promissora já estava cansada, desanimada e, por mim, terminada.

- Eu não o que? Eles construíram o castelo no meu caminho...
Eu agachei e olhei fixamente para um dos chorões:
- Você construiu o castelo no caminho dos gigantes mágicos e agora você será punido.
Em 10 minutos de encenações magníficas e micos que prefiro não comentar, era eu, “O Gigante Hugo”, que estava sendo enterrado pelas 3 crianças lindas e encantadoras.
Depois da brincadeira sentei com a família à sombra de um guarda-sol e começamos papear.

Encontrei o pessoal na mesa comendo a famosa porção de fritas com cheddar, bacon e catupiry e tomando um chopp na torre. Pra eles a noite estava divertida ainda e eu bodeado.
Clipes na tela, cerveja na torre, batatas nos palitos, catchup de sache, fumaça de cigarro e gelo seco, luzes piscando, pessoas desfocadas dançando ao fundo, risadas distantes, calor, um
- Acoorda jovem!!! - Hermano
- Opa! To acordado jow! Eu tava vendo...
- Acorda aí maluco que ainda são 3h !!! hahahaha
- Um brinde ao rei Davi!!! – Biga
- Aeee!!! - Todos
Pelo jeito vou trabalhar direto daqui.
Levantei de novo e fui ao banheiro jogar uma água na cara e dei uma animada.

- Eduardo e o seu?
- Advinha!!! - ela
- Começa com 'A' ?
- Não... - risos

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Rascunho de 25 de Dezembro

Primeiramente gostaria de pedir desculpas pra todos vocês, pois já é quase 20 de Novembro e eu ainda não desejei Feliz Natal pra ninguém, nem para as pessoas que convivo e nem para as pessoas sazonais.
Estive pensando e achei muito curioso como o Natal chega cada vez mais cedo - apesar de sempre ser dia 25 de Dezembro, todos os anos, não muda nunca -.
É começo de Outubro e as ruas, lojas, casas, shoppings já começam a se enfeitar. Guirlandas nas portas, luzinhas nas janelas e pinheirinhos amassados no canto da sala.
Os super-mercados ficam mais vermelhos e brancos. Os senhores barbudos e gordos arrumam um bico para tirar um extra e ter um Feliz Natal também. Os shoppings ficam mais enfeitados, as músicas ficam mais emotivas, os filmes e toda programação na TV fica mais tocante.
O Gugu, fantasiado de Papai Noel, leva presentes para orfanatos, hospitais e pessoas carentes. A Globo produz programas especiais, exibe ‘Esqueceram de Mim’, ‘Meu papai é Noel’, entre outros. A Record exibe ‘Jesus Cristo de Nazareth e os apóstolos’. A RedeTV mostra cachorrinhos mal-tratados e sem um olho vestidos de Papai-Noel, no programa da Luisa Mel. E por aí vai. Estranhamente tudo soa mais triste, misturado com uma sensação esperançosa.
Muitas pessoas vão pra praia passar o Natal, se beijam, se abraçam, se desejam Feliz Natal – só no Natal? - , algumas pessoas brigam, outras bebem demais, outras choram por ser o primeiro natal em 5 anos sem o namorado, outras choram ao ouvir o parente, antes da ceia, falando mensagens bonitas e trechos da bíblia, outras pessoas choram pelo peru que está à mesa, e outras choram vendo o Gugu e a Luisa Mel.
Hoje o natal é comércio, é natal em letra minúscula, estilizada, em itálico, bold ou em grafia serifada, aos poucos deixando de ser família.
No shopping, as crianças não tiram mais fotos com o Papai Noel, sentar em seu colo periga pedofilia. Acariciar ou verificar se a barba do velho é de verdade ou mentira, soa com duplo sentido. Do saco do Papai-Noel, nem vou comentar.
As pessoas não vêem a hora de chegar meia-noite para devorar o banquete. Outras não vêem a hora do natal chegar para terem um banquete. Outras ainda só reunem seus familiares no natal, numa ótima oportunidade para encontrar aquela priminha distante e, quem sabe, também ter um belo banquete!
Mas é Natal !!! É setembro !!! É carnaval !!! É legal !!!

Então seja feliz!!! Tenha um Feliz Natal!!! Ao menos esse dia, vai... faça uma forcinha!!!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Garoa num copo d´ água.

Uma garoa fina, céu cinza, os guarda-chuvas se esbarravam na calçada no centro da cidade logo às 6:30h da manhã, enquanto a fumaça dos ônibus, que chegavam no terminal, subiam para o céu como meu olhar que se perdia em certa altura. Em segundo plano via um garoto que corria entre os carros pendurando balas de uva nos retrovisores enquanto o semáforo ficava no vermelho. Ou verde? Ou apagado? Não vi direito, mas nesse dia ter semáforo ou não, não fazia a menor diferença.
A essa altura eu já estava atrasado, mas desisti de correr para pegar o trem - dia de chuva é assim mesmo, caos, atrasos, desculpas e comida o dia inteiro – e fui andando, aproveitando cada gota que caia na minha cara.
Com a minha calma, vi o desespero dos outros, que iam e vinham, como se fossem eu 2 minutos atrás. Olhei para os que embarcavam nos ônibus e perdi uns 30 segundos vendo aquele amontoado de carnes embrulhadas molhadas brigando por alguns centímetros quadrados, olhei para dentro da estação de trem, respirei fundo e me preparei para ser mais um desses embrulhos brigões.
Passei pela catraca e vi que o trem que me levaria para o trabalho estava na plataforma, ameacei correr quando ele correu primeiro. Desgraçado! Não sei se acontece isso com vocês, mas quando esse tipo de coisa acontece, eu fico com uma puta cara de tonto achando que todo mundo olha pra mim pensando ‘se fodeu, perdeu o trem – risada maléfica - Muaahahahah’. Então o jeito foi esperar.
Esperar trem em dia de chuva é como agachar na frente do forno e ficar esperando o bolo crescer. Doem as pernas, cansa a mente, ficamos impacientes e o bolo teima em não crescer, e o trem teima em não chegar. Após essa associação ridícula, fui comprar alguns pães de queijo, só pra ver se o tempo passava logo.
- Por favor, me dá um pão de queijo? Esse aqui ó!
Por pura coincidência – ou não -, na bancada da barraca do pão de queijo, encontrei um amigo que não via desde os tempos da escola. Ele me contou que já não namorava mais a mesma garota, ela havia se mudado para Cuiabá com os pais e ambos não acreditaram nesse namoro. Fez uma tatuagem de um dragão chinês nas costas, conseguiu três empregos depois que terminou a oitava série, mas foi demitido de todos eles, por que horário pra cumprir não é com ele mesmo, desde os tempos de escola lembro que chegava atrasado e nunca entregava os trabalhos no prazo. Conseguiu dinheiro vencendo, com um projeto que fazia desde a sexta-série, um concurso de inventores em São Paulo e abriu uma loja de equipamentos de som automotivo ali perto da estação de trem. Muitas novidades mesmo! Eu estava curiosíssimo pra saber como funcionava aquela invenção que ele escondia à 7 chaves de todo mundo, exceto do professor de física, que parecia o Tio Chico da família Adams.
Por mim, eu passaria o dia ali conversando, comendo pãozinho de queijo, vendo o desespero das pessoas, curtindo umas gotas de chuva na calça, mas a vida não é essa, né?! Notei que meu trem estava chegando. Nos despedimos e fui para a plataforma já me preparando pra guerra.
- Ohh meu Deus!!! Nããoo!!!
- Chamem uma ambulância!!!
- Ahhhh!!!
- Ohhhh!!!


Começou uma gritaria assustada, vi uma moça fechando os olhos do filho, andando em direção ao banheiro e eu, como outras dezenas de pessoas, fui ver o que tinha acontecido.
- Dá licença, o que está acontecendo? – cutuquei uma senhora
- Meu Deus, tenha misericórdia desse homem!!! Oh....
- Mas o que aconteceu, senhora?

- Pai nosso que estais no céu...

Puta que pariu, será que alguém se jogou, foi empurrado, alguém desmaiou, Jesus voltou, um rato mordeu um bebê, alguém estava pelado nos trilhos, o que acontecia, desgraça?!?! Dei mais uns cutucões na galera, mas tinha muita gente, ninguém sabia me dizer ao certo o que acontecia.

Bom, fofoca sem sucesso, muita gente lá e eu precisava ir trabalhar, fui seguindo em direção a saída ver se conseguia ao menos pegar um ônibus para ir ao trabalho, já que a estação estava tomada por guardinhas, polícia, logo chegariam aqueles jornais sensacionalistas, quando:

- Foi aquele ali, policial !!! – uma mulher negra, bem gorda apontava em minha direção.
Eu olhei pra trás para confirmar se era para mim que ela apontava. Era eu mesmo.
- Foi ele policial, eu tenho certeza !
- Desculpe, mas fui eu o que? – eu assustado, respondi.
- Foi ele, foi ele !!!

Sem entender nada, fui levado para uma sala separada da multidão na própria estação de trem, só tinha uma mesa de madeira e uma TV pendurada. Fiquei lá por 2 horas e trouxeram uma fita que diziam ser de uma das câmeras de segurança. Tudo bem. Eu só precisava avisar que não iria trabalhar nesse dia, mas ninguém me emprestou sequer um celular ou um cartão telefônico. O meu celular havia ficado embaixo da cama carregando. Mais uma vez, tudo bem. Amanhã explico a situação.

Ligaram a TV e um aparelho semelhante à um vídeo-cassete, ambos velhacos. Eu não parava de pensar nas senhoras assustadas orando, a mãe fechando os olhos do filho, e eu ali trancado naquela sala, curioso para ver o que havia na fita, batendo meus pés, ansioso.

Olhei para a TV sem entender nada. E o policial olhava para minha cara, de braços cruzados, com uma cara que não negava estar puto da vida, sei lá com o que, talvez comigo. Era eu ali, na TV, conversando com meu amigo, comendo alguns pães de queijo. Passaram-se mais de 20 minutos de agonia, eu vendo a fita. E a gritaria lá fora continuava. Terrível.
Quando o vídeo acabou, me levantei, abri minha carteira e paguei meus pães de queijo que havia esquecido à senhora gorda.
Saí da salinha e aproveitei, já que não ia trabalhar, para dar uma passada na loja de som do meu amigo, enfrentei mais uma garoinha, vi mais uma galera se estapeando pra entrar nos ônibus e cheguei na loja, branca e azul, bonita, cheia de carros e música, perguntei pelo meu amigo, mas ele não estava.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Atentado terrorista

10 de Setembro, segunda-feira comum.
Pela manhã um solzinho tímido, e ele, dia de folga, sem nada pra fazer.
Pela tarde, apenas uma volta no quarteirão de bicicleta – prata, 21 marchas - que ganhou, havia 1 ano, de sua ex-namorada.
Pouco depois das 19h ele estava cansado de não fazer nada, olhou pela janela e viu uma chuva pesada, desanimadora. Nocauteou-se no sofá e, deitado, cobriu com um braço apenas um dos olhos, de maneira que conseguia segurar o encosto do sofá por trás de sua cabeça, com o outro, apoiava sobre o vidro gelado da mesa de centro.
Ela estava quase pronta para sair com sua melhor amiga, só faltava passar o batom e calçar seus sapatos pretos de bico fino que ganhou de seu ex-namorado havia 3 meses. O elevador demorava para subir – sua vizinha do andar de baixo, Heleonora, acabava de chegar com as compras e suas 3 crianças infernais - sua amiga, que já estava na portaria, começou a ficar ansiosa.
Eram 19:27h e ele já tinha ligado para seus 3 melhores amigos e para meia dúzia de garotas com quem sempre rolava um esquema. E nada.
Passava das 20:20h ele estava andando de carro sozinho por aí.
Ela chegou ao barzinho que sempre ia às sextas-feiras por volta das 21h. O som já rolava e, apesar da chuva, o pessoal começava a chegar.
No meio do caminho, ele percebe seu marcador de combustível baixar e, no ritmo do limpador de pára-brisas, cantava as músicas de sua banda favorita – não tinha jeito, já que seu aparelho de cd havia sido roubado nem uma semana antes -. Deu seta para direita e vê o local mais iluminado da rua. Pessoas bonitas, um lugar agitado. Já eram 21:45h e não havia modo de rejeitar um convite desses.
Enquanto o som ao vivo de mpb rolava, ela dançava e ria muito com sua amiga que, no intervalo da terceira música, quis ir ao banheiro. Cansada e com sede, ela vai ao balcão pedir uma garrafinha de água sem gás.
Às 22:12h ele, que estava sentado em uma mesinha ao lado do palco, olha para o balcão.
Exatamente às 22:12h ela, que estava sentada no balcão olha para as mesinhas.
Neste mesmo horário, dois sorrisos surgiram. O dela foi acompanhado por um movimento tímido, encolhendo o rosto para a direita.
01:01h
- “Na minha casa ou na sua?” – ela
- “Na sua”
Que cena mais estranha. Foi amor à primeira vista - quem não acreditar nisso, sugiro que olhe mais a sua volta. –
No caminho, não faltou assunto. Incrível como as risadas eram sinceramente compartilhadas.
O cenário tinha tons escuros, já três garrafas de vinho no chão – duas delas caídas - . Na cama só o lençol, sem o edredon que, ninguém sabe como, estava na sala. Na pele, apenas a outra pele molhada de suor. Que noite!
Cada sorriso tinha uma sensação de promessas. Cada beijo, a confirmação. Só podia ser amor. E foi.
O dia clareou e ele acordou desesperado procurando suas roupas:
- “Preciso ir embora, estou atrasado.”
- “Você volta hoje à noite, né?! Você prometeu...” – ela, sorrindo-falando-cantando com ar de romance.
Ele olha pra cima, já vestindo sua camisa e, como uma bola de lâminas que sobe pela garganta, responde:
- “Não podemos viver juntos, sinto muito. Você tem um gato, eu tenho um cachorro que não suporta gatos.”
Ela o vê partir – seu coração – e cai coberta pelo lençol em prantos na cama.
“Espera! Ele não me disse nada sobre cachorros ontem, quando falei do meu gato.” – ela pensa.
Pega o telefone sem fio na cabeceira da cama e, olhando para a mão esquerda, digita o que via com a mão direita:
- “Alô?” – diz uma voz cansada no outro lado da linha.
- “Bom dia senhora, sou da Clinica Veterinária e estou ligando para confirmar a vacinação do cachorro hoje às 15h, tudo bem?” – ela diz.
- “Olha minha filha, sinto muito, mas acho que ligou errado. O único cachorro que eu tenho aqui não dormiu em casa e deve ter ficado na gandaia até altas horas, desculpe.”

Ela desliga o telefone. Liga a TV, era 11 de Setembro.