terça-feira, 27 de dezembro de 2016

ANSIEDADE POR ANSIEDADE

Ela não me deixa dormir.
Meu corpo fica estranho. Que sensações são essas?
Quero já, quero agora. E tudo ao mesmo tempo.
Vai ser legal. Vou resolver. Não quero passar por isso.
E o tempo não passa.

Dói o estômago. Os músculos travam.
Meu humor muda. É incontrolável.
Suo pelos pés, pelas mãos, pelo corpo inteiro.
Não existe posição confortável.
E o tempo não passa.

Será que vai dar tudo certo?
Qual o melhor caminho?
Minha estratégia é adequada?
Será que só eu me sinto assim?
E o tempo não passa.

Coração acelera e o relógio não.
Sinto minhas veias pulsarem num ritmo descompassado.
Respiro fundo numa ilusão de voltar ao controle. Não há controle.
São muitas perguntas para apenas uma vida.
E o tempo não passa.

Deitado e coberto. O calor e frio se revesam a me incomodar.
Buscava entre meio milhão de pensamentos a resposta de como seria.
E no fim... o tempo passou. Não há controle.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Correria

E já é fim de ano outra vez. E o que você fez?

Acorda cedo, pensa numa desculpa pra não levantar, levanta.
Toma banho apressado, come rápido (as vezes nem come), corre pra não perder a condução.
Faz a transferência pra outra condução e espera chegar.
Chega.
Anda no meio das pessoas, sobe o elevador. UFA! Chegou! Correria!
Trabalha, trabalha, facebook.
Trabalha, whats app, e-mail, trabalha, trabalha.
Almoço.
Trabalha, trabalha, enrola... cafezinho... começa a imaginar a noite...
Pega trânsito pra ir pra faculdade, pega outra condução.
Busão lotado, fedor insuportável. Não dá pra piorar!

CHUVA!

Trânsito parado, celular sem bateria, bafo quente no busão!

Chega atrasado na aula, tá com sono.
Não jantou.
Estuda, dorme, estuda, cochila, conversa.
Vai pra casa.

Torce pra não ser assaltado.
Pega busão, pega outra condução.
Chega em casa. Tarde de novo.

Come alguma coisa rápido, calcula quantas horas vai dormir.
Se frustra, abre o facebook, perde mais duas horas de sono.
Dorme, acorda atrasado.

Acorda cedo, pensa numa desculpa pra não levantar, levanta.
(...)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Ideologia, eu quero uma pra viver.

Eu gosto de histórias de amor com finais felizes (e com outros tipos de finais também).
Histórias de amizade e histórias de família também me agradam. Histórias de admiração e de respeito me empolgam. Quando enxergo sinceridade e consciência, acho fantástico.

Parei para pensar nas últimas histórias que tenho ouvido e poucas delas me provocaram bons sentimentos. (Na verdade não me lembro de nenhuma boa história, mas, para não ser tão generalista, vou dizer que poucas foram positivas.)

Eu vivo num dilema entre: o que é exatamente real pra mim e o que é exatamente real pro outro? E isso, muitas vezes, é frustrante.
Vejo as pessoas correndo pra lá e pra cá, sem tempo pra nada. Sem tempo para um conselho, sem tempo para um abraço, sem tempo para o filho, sem tempo para o namorado, sem tempo para os amigos, sem tempo para não fazer nada, sem tempo para olhar o tempo. Afinal, para onde estão correndo? Porque? Até quando?

Vejo situações de completo desrespeito. No trânsito, na empresa, nas casas, ao vivo, no youtube, etc... Afinal, onde estão os valores e princípios? Existe isso? Ou é uma fantasia minha?
Tenho uma preocupação infinita para não fazer parte desse grupo que enxergo como 'corredores alienados'. E não quero ser pejorativo na forma da citação, mas é que, com tantas cobranças, com tanta ambição, com tantas regras a serem cumpridas, com tanta competição, parece que se esquecem / não se preocupam / não têm tempo para avaliarem os porquês. (E precisa?)

Será que é manipulação, alienação? Ou ambas andam juntas?
Merda! Isso é muito complexo. Eu sinto que não tenho condição e estrutura pra conseguir chegar a uma conclusão. Será que eu estou errado? A ignorância é realmente uma dádiva?

Por mais que eu tente enxergar as 'coisas lindas do mundo', vêm esses pensamentos de que tudo é podre e que o dinheiro manda nas pessoas.
Em mim não, não em mim! (Quero acreditar nisso).

É muita prepotência minha considerar as pessoas 'medianas' ? (sendo bem positivista na avaliação).
Mas é assim que enxergo a maioria delas: Estudando para conseguir um bom emprego. Em um bom emprego para pagar os estudos e, com estes, poderem continuar no bom emprego. Emprego para pagar o carro, o carro que leva para o trabalho. Dinheiro para conseguir mais dinheiro. Essa roda não tem fim? Que pressão é essa? Porque viver nessa "correria"?

Cadê as histórias de amor? As histórias das vitórias coletivas? Cadê a poesia nisso tudo? É fantasiar demais? Isso nunca existiu e eu fui iludido? Sério que tudo isso que eu imagino é uma grande mentira? Minha visão está deturpada? Como você enxerga tudo isso? (Não me venha com "é assim mesmo" e outros conselhos clichês... economize a minha paciência.)

Quero acreditar que não estou enganado.
Quero acreditar que eu posso desenvolver um bom trabalho, para conseguir um bom dinheiro para manter confortavelmente a minha família, que eu consiga fazer viagens, que meu trabalho seja relevante, que eu possa ajudar o maior número de pessoas a conquistarem mais conhecimento, que este conhecimento as guiem pelos verdadeiros caminhos delas. É utópico?

terça-feira, 15 de maio de 2012

O garoto que não conseguia sonhar I

Eu não tenho sonhos.
Há muito tempo venho pensando nisso.

O que eu quero pra minha vida? Como estarei daqui há alguns anos? Quanto esforço terei de dispor para alcançar o que almejo? O que eu almejo?

A primeira lembrança minha que tenho como gente, beira os meus 13, 14 anos, quando eu ia e voltava da escola sozinho de ônibus ou de bicicleta. Apesar da superproteção da minha mãe, ela, de certa forma, confiava em mim e na minha sorte (que eu adorava abusar).
Tantos amigos visitavam a minha casa, jogávamos bola na rua, no parque e na escola. Entrei na aula de violão e, a partir daí, encontrei uma paixão. A música.
Não sou virtuoso, nem tão pouco estudioso, mas gosto. E foi uma das poucas coisas que gostei, de fato, na minha vida. Nunca gostei de carros, não gostava de tecnologia, nunca fissurei em celular, roupas de marca, nem acessórios de vestuário, nem de séries de TV. Eu gostava do meu violão, dos passeios de barco com a minha família e de me reunir num estúdio com a minha banda. 

Ah! Eu gostava também de colorir aquelas revistas pra criança, até hoje ainda gosto. Uma vez meu tio apareceu com um anúncio de revista em casa e eu fiquei impressionado com aquelas cores.- "Serei publicitário". - Pensei, desde então. Sem uma completa noção do que era um publicitário, obviamente.
Consegui o meu primeiro estágio aos 14 anos em uma agência de publicidade como aprendiz de designer gráfico, nunca abandonando minhas bandas que, ao longo do tempo, foram se desfazendo por conta de mulheres, por conta de "falta de tempo", por brigas ou por desinteresse mesmo. Mas a música não saia de mim, nem eu dela.
Qualquer lugar que eu visitava, bar, casa de num sei quem, eu sempre tinha um olhar clínico pra perceber se havia instrumentos musicais no local e também reparava na comunicação visual dos mesmos. Dois quadros, um vaso sem o menor nexo, chão manchado, um case de violão. Eu reparava em tudo. Não se estava arrumado ou desarrumado, mas se haviam cores combinando ou alguma peça musical.

Conheci minha primeira namorada.

... continua ...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Carta não perecível

Esse texto não tem muita coisa de diferente não. Fala de amor, de choro, de raiva e de angústia sentimental. Todo aquele bla bla bla que, se você leu outros textos, já sabe como funciona.

Eu escrevi essa carta olhando velhas fotografias, bilhetinhos, e-mails e ouvindo uma música instrumental triste, tocada em piano e percussão somente. Só pra dar aquele clima meio roxo e triste, como os filmes fazem.

Olhei para nossas fotografias, reli nossos e-mails e trocas de mensagens num ritual macabro de auto-sabotagem, mutilação e repúdio de um passado parcialmente verdadeiro, traduzindo ao sumo a dor e todo rancor dos nossos arrependimentos, disso entendemos. De arrependimentos.

Eu e você, na real, gostamos de sofrer. Ai de você, se você não concordar! De ver o que não gostamos, de dar aquela olhadinha pra ver como está, se está, enfim. 'Curiosiar' a gente sabe bem o quê. Que seja a rede social, ou se andou fazendo novas amizades por aí, postou alguma coisa no blog, enfim, futricar. E quando damos de cara com algo que não gostamos... dói.

Queremos encarar os problemas de perfil. A dor, de certa forma, satisfaz a nossa curiosidade. Que idiotice, não?! Trocamos uma interrogação por uma lágrima, ao invés de mudarmos o foco. Já ouvi muito esse conselho. Já te dei esse conselho e você já disse isso pra mim muitas vezes. Brincamos conosco. Somos uns lixos!

Seria clichê falar dos climas fazendo elo com nossas emoções, mas eu gosto e acho bem plausível para o momento.

E esse calor que emenda os amores, como numa fundição o aço é unificado?Aquela sensação que a gente confunde com nossos pensamentos, se entrega sem medo do 'e se...'. E vai. E quando pensa, já foi.Insisto em dizer que o começo do ano é onde os amores nascem, no inverno se aproximam e no final do ano se desfazem. Não sei se é lógico, matemático ou puro azar sobre as coisas que eu vejo ou vivenciamos, mas tenho isso pra mim como 1 e 1 são 11. 
Tudo é violável e substituível, exceto meu amor sem prazo de validade.


Uma vez me disseram que é normal sofrer por amor, que todo mundo sofre, sofreu ou vai sofrer um dia. O melhor disso é que a dor não dura pra sempre. Vamos pagar pra ver até onde nosso orgulho e sofrimento nos levarão?

Escrevo para não transbordar minhas emoções em nossas recordações.
Dói, ainda dói sim, dói demais esperar o telefone tocar e você não mais me ligar.
Dói não ter sua poesia expressa na minha caixa de entrada.
Dói, ainda dói sim, dói não ter o seu cheiro no meu travesseiro.
Eu quero mais uma hora com você. Mais 60 minutos de conversa e daqueles beijos que só a gente sabe trocar.
E mais a vida inteira pra gente repetir tudo isso quantas vezes quisermos. E pelo que te conheço, serão muitas.
Me liga, pode me ligar! Faça valer o que dizia sem parar, que só o amor basta pra ficarmos juntos. Que isso é fora do normal e que a gente se completa. Suplico, nessa carta, em forma de última tentativa que a gente fique juntos. Eu quero! Eu quero! Eu quero que você queira também. Pense nisso?
Me liga, pode me ligar! Faça valer o que dizia sem parar.

Beijos,
seu amor.

P.S.
Não ligo se pareço fraco. Você me conhece quando estou forte, sei que não se esquece disso!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Inventor

Cabelos pretos e bagunçados, típico de maluco. Andava de um jeito acelerado. Atrasado, derrubava os papeis pelo salão principal do prédio que morava.
Enquanto pegava um ponhado de papel que caia, derrubava as chaves de casa e do carro, perdia mais tempo se apressando do que se arrumando. E não ligava pra nada disso.
Por diversas vezes deu de cara com o vidro que separava o hall do prédio da escada da portaria. Mas nem se dava conta, achava tudo normal.
"Bom dia, tudo bem?!" tímido, representava isso só com um balançar da cabeça, pro porteiro e pra moça do Yakult. Abria o porta malas do carro e arremessava toda papelada e sua mochila lá. Do jeito que caia, ficava.

Ele sabia que era motivo de chacota da molecada do prédio e percebia que alguns adultos evitavam entrar no mesmo elevador que ele, mas não se abalava a princípio, mudava o foco do pensamento e já lembrava de alguma canção. Só queria chegar ao seu destino e fazer suas coisas. O resto era só o resto mesmo.

No toca fitas do seu carro tocava artistas que só ele conhecia. Canções de blues, rock anos 80 e, em dias mais cinzas, desligava o som. Na ida ou na volta também curtia as rádios AM que ficam passando notícias o dia todo.
Ele odiava semáforos vermelhos, calculava sua velocidade para pegar todos verdes até a avenida principal. Aí de lá fugia de seu controle. E no controle ele queria estar sempre. Gostava de prever, calcular hipoteses e arriscar. Não era um cara de muitos amigos, mas era admirado por quem "o conhecia". Uma pena ele não saber disso.

Ele morava sozinho, não se sabe como chegou ao condomínio, raras vezes pedia uma pizza e recebia uma visita. Os volumes de seu apartamento eram moderados e suas contas estavam sempre em dia.
Não gostava de baladas, nem de televisão. Não bebia e não fumava.

Aos domingos, colocava sua bermuda azul escuro de 'tactel', seu tênis branco e uma camiseta qualquer para caminhar no parque. Saia pontualmente às 7h para caminhar. Dados exatos 30 minutos de caminhada, ele se sentava em um banco onde o sol podia alcançá-lo e ficava olhando.

Seus óculos embaçam por causa do suor, arrisca ficar sem eles por diversas vezes, mas só enxerga cores em movimento. Desiste, recoloca os óculos, apoia os cotovelos nos joelhos, cruza as mãos cutucando uma folha e olha, só olha. Olha tudo a sua volta.

A garota de patins, o gordinho suado, o bombado na barra, a molecada com uma bola, um casal com o cachorro, o chafariz, a menina e seu livro na grama, o garoto com seu violão, o gurizinho e sua pipa,  a gordinha e o sorvete, o ambulante e sua pochete, a gostosa de sainha, a bicicleta e a corrente, a senhora e sua garrafinha de água, o grupo de dança, o segurança e seu rádio, a faxineira e sua vassoura, a nuvem e o céu, o vento e as árvores, ele, o banco, tudo isso e seus pensamentos desalinhados.

Levanta, decide caminhar mais um pouco, dessa vez no contra-fluxo dos que estão correndo.
Leva algumas esbarradas, mas segue firme. Repara alguns olhares de reprovação por estar na 'contramão', mas não para. O ritmo dos seus passos começam a ganhar velocidade e segue. Olha para o chão e olha pra frente respirando em bit acelerado. Conta quantos passos está dando e quantas pessoas passam por ele. Metódico, inventando novas manias. Quinze passos e 8 pessoas. Três mulheres e cinco homens. Trinta passos, vinte pessoas. Segue aumentando o ritmo e levanta o pescoço para que o vento refresque seu rosto. Um, dois. Um, dois. Um, dois. 
Adora a sensação.

- "Cuidaadoo!" - Alguém grita.

Ele tropeça em alguma coisa e cai. Por lá fica alguns instantes.
Alguns riram impulsivamente.
Outros se desesperaram.
Alguns fingiram que não viram.
Outros ficaram com pena.
Alguns acharam 'bem feito!'.
Outros queriam ajudar.
Alguns sabiam o que fazer.
Outros não arriscaram estender o braço.
A maioria se aproximou pra ver o que estava acontecendo. E só ficaram olhando. E olhando.

Ele abriu os olhos calmamente, não dirigiu uma palavra a ninguém. Levantou pacientemente, recolocou seus óculos levemente retorcidos, olhou a expressão das pessoas que estavam ao seu redor, com os braços abriu espaço para passar no meio daquela muvuca, ouviu um pedido de desculpas sendo gritado ao fundo, um burburinho qualquer e seguiu curtindo o vento em seu rosto. Ganhando velocidade no contra-fluxo. Um, dois. Um, dois. Joelhos e cotovelos levemente ralados ardiam e se refrescavam na brisa que recebia.
Quanto mais rápido, mais refrescante, menos dor.
Quanto mais lento, menos refrescante, mais dor.
Pensou.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Trinta e uma linhas

Eu tenho dois segredos que guardo no meu peito
Um é poesia, outro uma canção.
Prosa, rima e versos suaves para o ouvido
Peso, melancolia e desespero para o coração.

Um tem o ritmo que quisermos recitar
Outro tem levada forte que não dá pra controlar.
É canibal e doloroso, é sereno e prazeroso.
É certeza e quente, é duvidoso e inconsequente.

Eu tenho dois segredos que guardo comigo
É catástrofe e confortante, é paz e perigo.
É pressa e ansiedade, é garoa com sol no sábado a tarde.
É heterogêneo e uniforme, é um mix que não dorme.

É agito da madrugada na mata do interior
É silêncio na balada, o frio que passa calor
É segredo e não conto,
É um grito de amor, um conto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Não falo nada

Lugar maravilhoso. Céu azul e limpo. Montanhas e montanhas de areia ao fundo. Vento muito sutil. Só ela e eu.
Dançavamos empolgados por uma substância que deveria ser proibida, mas arranjamos um esquema de sentir tudo aquilo.
Eu de boné, ela de presilha no cabelo. Puxei ela pra mim e, levemente, joguei seu corpo pra trás, segurando em sua cintura. Ela levantou uma das pernas e quase tocou seu cabelo no chão. Uma dança bonita, evolvente e muito gostosa - pelo menos pra gente era -. Ao retornarmos a dança, a sensação foi violenta e arrebatadora. Senti suas unhas elevarem minhas costas até a minha nuca e eu segurando seu rosto e seu pescoço tudo junto, com as mãos encaixadas em suas orelhas. Nos beijávamos sem parar.

- "Essa parada é muito boa!" - Eu pensei.

Ensaiamos mais alguns passos. Estava muito quente. O tempo, o sol e a areia.
Mentalizei fortemente todas aquelas caras que ela fazia, para eu nunca mais esquecer. Eternizei em mim as imagens e aquela sensação. Penso nunca mais conseguir tanto prazer.

Entramos no mar e lá brincamos e dançamos ainda mais. Aquela sensação de alegria só ia aumentando. Tinhamos conseguido uma droga poderosíssima! Capaz de trazer alucinações, vertigens, prazer intenso, vontades absurdas de fazer qualquer loucura. O amor é, pra mim, a pior droga descoberta.

Voltamos para nossa casa em SP e seguimos nos amando, nos preenchendo, nos confortando, nos apoiando, enfim, tudo aquilo que uma droga pode trazer de bom. O tempo foi passando e as dosagens foram aumentando desenfreadamente, era demais! E eu queria sempre mais! Ela, aparentemente, também! O que eu não tinha conhecimento, é que uma droga, depois de um efeito prolongado, ela causa diversos tipos de danos a diversas pessoas, não só aos usuários, mas à família, amigos, etc. Todos envolvidos indiretamente acabariam tendo algum tipo de transtorno.

O tempo passou numa velocidade incrível que não percebi que meu vício havia se tornado um incômodo.
Os problemas cegados inicialmente vieram a tona numa explosão avassaladora de volumes altos, melancolia, sentimentos de culpa, tristeza, arrependimentos, despejos de agressão e ferimentos incicatrizáveis. Como dizem, é muito difícil largar uma droga. Senti isso na pele. Sinto ainda, eu acho.

Decidimos parar, por um tempo, de continuar o uso desse entorpecente e nos afastamos.

Estive contaminado, adoeci, surtei, eu precisava daquilo tudo de novo, em doses controladas, para me manter saudável e desfrutar o prazer absurdo que ela me oferecia. Estava em reabilitação, monitorado pela minha consciência, pelos meus receios de tanto transtorno causado na minha vida.

Abstinência quebrada. O vício, acreditava eu, estava sendo controlado, mais uma ilusão.
O sol que brilhou trazendo-a pra mim, foi o mesmo que ofuscou sua visão e a colocou em sua escuridão. Eu queria estar lá, pra fazer tudo certo dessa vez, eu queria que ela fosse capaz disso também, mas o que é certo? O que é ser capaz? O que é essa droga? Existe uso controlado? Dá pra criar tantos acordos assim?
Não sei as respostas de muitas perguntas, evito errar, mas arrisco, no meu tempo, para, enfim, acertar. Foi assim mesmo, cheio de vírgulas. Espero não ser mais. Eu. Assim.

Eu falaria sobre o tempo. E o quanto ele é importante com diferentes significados pra cada pessoa. Preciso do meu. Você precisa do seu. Eles precisam do tempo deles. Suas decisões são tomadas no seu tempo. As minhas, no meu. Talvez exista um meio termo. Ou não. Existe uma receita, um manual?
É obvio que meus amigos e parentes me apoiarão em minhas ideias. Eu as construí, eu as vendi. Todos vão apoiar minha decisão, menos o meu coração. O mesmo vale pra você. Pra ele. Pra ela. E quando a consciência pesa, não há amigo, mãe, médico ou pai que tirará essa dor. Talvez resolver seja solução. Talvez.

Eu não entendo nada do amor. Achar que entende ou entender mais ou menos, é muito pior que assumir a ignorância. Torna-se ainda mais egoísta e orgulhosa a pessoa que não querer lidar com as situações formadas entre ambos. As situações nunca são ditadas somente por um lado. Críticas desordenadas conduzem, quase sempre, ao cinismo. E é aí que a razão se perde. Em meio as ironias e volumes desajustados.

O sol vai nascer, brilhar, se pôr e nada que fizermos vai mudar isso. O que temos em mãos, cabe somente a nós decidirmos o que fazer. Não fazer nada também é uma escolha. Boa ou ruim? Não sei falar sobre isso.

Eu falaria sobre filosofia, falaria sobre psicologia, falaria sobre a origem do mundo, mas eu não entendo de nada disso também. Eu falaria sobre nós, falaria sobre você, falaria sobre mim, mas eu também não entendo nada. É só sobre isso que eu falo. Que não sei de nada. Que eu não entendo nada. Sou incompleto.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eu queria ser um segredo

O desconhecido é sempre um segredo que alguém não revelou. E quem não é curioso o bastante para se interessar por um segredo? E se esse segredo for seu e nem você mesmo conheça o conteúdo?

Metade da minha vida utilizei umas máscaras para conseguir algumas coisas: amigos, um emprego, uma garota, um real, uma hora de atenção, enfim... usava todo aquele arsenal de personalidades que um ser humano pode utilizar, as famosas "máscaras". Famosas máscaras que ninguém gosta de admitir que usa.

Fechei o livro deixando o marcador de páginas na 46, faltava ainda mais da metade pra terminar de lê-lo. Fui atender meu celular e recebi um convite inusitado em pleno início da madrugada. Topei!
Quinta pra sexta-feira, coloquei minha fantasia de baladeiro e saí com a Laura, amiga que saio desde que tenho uns 14 anos, passei na casa dela e fomos a um bar jogar sinuca.


Lá encontramos alguns amigos meus e amigos e amigas dela. A maioria, por sinal, já se conheciam, só eu não sabia desse universo de amizades em comum. A princípio foi divertido.
Com o passar das horas e das bitucas arremessadas na sarjeta, minha fantasia de baladeiro foi se desfazendo e eu fui colocando a minha fantasia de conquistador. O porque, ao certo, não sei. A troca foi suave, mas rápida, poucos amigos próximos perceberam.
Ainda na área de fumantes, pendurei um sorriso falso abaixo do meu nariz para me aproximar dela. Ela me olhou três ou quatro vezes seguidas com aquele aspecto: "Você vai vir aqui perto mesmo? Ah.. por favor, não!"... e eu senti que ela também pendurava um sorriso falso quando a abordei e iniciei um papo qualquer.

Chequei no meu banco de dados um assunto que possivelmente pudesse surpreender, impressionar... hum.... em vão. Todos os assuntos que eu dominava, ela também dominava e quando ela arriscava algum papo diferente, eu sabia do que ela estava falando. Isso se tornou engraçado. Como um bom estrategista, aproveitei esse gancho. Tínhamos muitas coisas em comum. Conversamos durante quase uma hora sem interrupções -somente para encher o copo-.
Eu só percebi que não estava mais com a fantasia de conquistador quando eu quase avancei para beijá-la. Minha ideia inicial era que acontecesse o contrário. Foi quando decidi ir embora. Talvez a fantasia dela de conquistadora tenha sido mais elaborada. Vazei.

Logo pela manhã do dia seguinte, voltando do centro de São Caetano, encontrei minha amiga Laura no semáforo da Av. Goiás com a Amazonas. Na verdade ela me encontrou. Ela estava voltando do curso de inglês a caminho do ponto de ônibus. Quando parei no semáforo, tomei um puta susto com ela batendo no vidro: 
- Ae cabeção, me dá uma carona!

Ela entrou no meu carro sorrindo e perguntando com uma fantasia de ironia:

- Pra onde você foi ontem que nem me deu tchau?
- Ué... eu fui pra casa, por que?
- Sei.. pra casa... fala a verdade!
- Fui pra casa mesmo... sério. Eu estava com dor de cabeça de ficar lá.
- Hum. Tenho um recado pra você.

Passou pela minha cabeça que algum amigo meu quisesse falar comigo, sei lá, mas foi um recado estranho. Eu não estava fantasiado de 'Cara Preparado Pra Receber Um Recado' e deixei minha face responder o quão feliz e confuso fiquei com a notícia.
- Ihh... pelo jeito você gostou dela também, né?! - Laura me disse.

"Malditas expressões corporais! Logo eu que fico analisando todo mundo deixo escapar uma dessas! Fraco!" - pensei.
- Aham... normal. Achei ela legal. - respondi.

Contei algumas coisas que conversamos, ponderando nas palavras, vestindo um verdadeiro traje 'mediador', de maneira que ela deixava escapar algumas informações que eu julgava importantes para minha, então, quase conquista.

Quando chegava perto da casa de Laurinha, ela pede para eu encostar o carro porque quer me contar uma coisa. Senti que ela vestia uma dramaturga de segunda. Suspense!

- Edu, o que você tem?
- Como assim?
- Sério, você fica sempre na defensiva. Se abre comigo. Eu sempre falo tudo pra você, sinto que não é recíproco. Espero que não se ofenda, mas eu gosto muito de você e acho, sinceramente, que você também tenha uma consideração por mim.
- La, de boa, não tenho nada, sério. Adoro você, óbvio, mas não sei do que você está falando. (fantasiado de sínico)
- Tem um tempo que queria ter esse papo com você. Do que você tem medo? Por que se esconde tanto dentro de si mesmo?
... fiz uma pausa tenebrosa. Ela havia quebrado mais um disfarce meu e eu não conseguia pensar em nada pra virar o jogo. Há algum tempo eu vinha percebendo que minhas máscaras ficavam cada vez mais fixas em mim. Arrisquei:
- Então, Laurinha, não sei porque você tem essa impressão. Eu conto as coisas da minha vida sim, só que não são do modo como você conta ou, talvez, do modo que você gostaria de ouvir.
- Hum... - silêncio -. Beleza. Podemos ir nessa.

Ela se voltou pra frente e colocou o cinto esperando que eu ligasse o carro. Óbvio que percebi a decepção dela com a minha resposta "grosseira"... eu diria "direta". Fomos em silêncio até a casa dela.

- Tó. Esse é o telefone da Ariane. Ela falou pra você ligar pra ela. Desculpe se te incomodei.
- Tranquilo. Valeu.

Arranquei com o carro e vi, pelo retrovisor, ela sentando em frente sua casa, fitando meu carro. Não entendi porque não tinha entrado pra casa... então resolvi dar a volta no quarteirão pra ver se estava tudo bem mesmo.

Passando novamente pela casa dela, estava somente o material do inglês. Achei estranho. Olhei pra todos os lados da rua, fui atrás da caçamba de uma obra que acontecia na rua dela e nada também. Dei uma olhada entre os tapumes da construção, mas estavam bem fechados. Peguei seu material e toquei a campainha uma vez. Duas vezes. Pela terceira vez e.... desisti. Aguardei uns cinco minutos na rua pra ver se ela aparecia e nada... Pensei em ligar pra ela, mas, pra variar, meu celular havia ficado embaixo da minha cama recarregando a bateria.

Eu sempre ando com um cartão telefônico para certos imprevistos, porém eu não sabia o telefone dela decor. Procurei rapidamente alguma coisa no material dela, vi que tinha um livro do mesmo autor do livro que eu lia, mas não achei mais nada. Foi quando veio o 'click!': "Vou ligar pra Ariane, explicar a situação e pedir o telefone da Laura. Vou parecer ridículo, mas dane-se. Vou com a fantasia de 'não me importo com nada' e é por uma causa boa."

- Ariane?
- Alô? Ela mesma, quem é?
- Oi Ariane, é o Eduardo... amigo da Laura, sabe?
- Eduardo...? Eduardo...?
"Pra cima de mim não! hahahaha" - Pensei. Eu sabia que ela sabia quem era, lancei:
- Ah.. Nada não... Deixa pra lá, então. Eu~
- Não! Não! O Eduardo de ontem do bar, né?! Da sinuca?
- Isso.. eu mesmo. (risada maléfica interior: Muaahahaha! I´m win!)

Ela me contou que acordou bem, não tinha notícias da Laura, mas que tentaria ligar pra ela.
Ariane estava morando na casa de uma tia solteira, aqui em São Caetano mesmo, ambas dariam uma festa naquela noite e me convidou. Disse que convidaria Laurinha também.

Passei a tarde inteira dormindo me recuperando da noite anterior e pensando como a Laura tinha esquecido o material do inglês dela. Nem me passou pela cabeça qualquer desgraça. Sempre acho que as pessoas são mais esquecidas, burras, do que passíveis de um ato de violência... até porque notícia de desgraça voa.

Dormi muito. Acordei quase oito da noite. Jantei. Tomei banho. Me troquei. Aí liguei pra Laurinha pra passar na casa dela pra buscá-la. Não me atendeu. Liguei pra Ariane que disse ter falado com a Laura e ela já estava a caminho. Justo! Peguei meu carro, liguei o GPS. Passei no mercado. Comprei umas bebidas e fui pra casa da Ariane. Com uma fantasia de quem iria se dar bem naquela noite, desliguei meu celular pra nenhum amigo vir atrás de mim.

Chegando no prédio da Ariane, toquei o interfone:
- Boa noite. Vou no apartamento 92.
- Seu nome?
- Eduardo.
- Ah sim. Pode subir...

"Caramba! Será que tem uma lista de convidados?" - pensei

Toquei a campainha e aguardei. Ariane veio me receber. Mais linda ainda agora, eu comigo sóbrio. Me convidou pra entrar.

- Ué. Tudo bem? Cadê o pessoal, a Laurinha?
- A Laurinha ligou desmarcando e o resto do pessoal não veio.
- E sua tia? 
- O ex-marido dela ligou querendo conversar... e ela, capachona, foi.
- Então~
- ~Então só veio você. Por mim não tem problema. Por você tem? - ela dizendo, já sabendo minha resposta, se virava em direção a cozinha.

Fixaram na minha mente aqueles olhos claros realçados por aqueles cabelos ruivos... Afe! Não tive escolha. Tomamos uns dois drinks. Conversamos bastante. Ela desligou a TV. Não colocou nenhuma música. Abriu a cortina da sala pra luz da lua entrar e sentirmos uma leve brisa. As luzes da sala estavam acesas. Aliás, da casa inteira estava. Nesse cenário claro e estranho, atípico para um romance, ela foi, vagarosamente, despindo todas as minhas fantasias. Rebatia todas os meus questionamentos. Quebrava mais uma e outra máscara minha. Eu tirava lentamente sua roupa de timidez também. Ela levantava para tirar os meus sapatos de superioridade. Abri botão por botão de sua calça de ansiedade. Ela arrancou com violência minha camisa hipócrita. E fomos nos descobrindo.

Ela me fez contar coisas que eu não sabia. Eu queria ser um segredo e ela me revelou.

Logo pela manhã fui até a cozinha preparar um café da manhã pra gente, sem fantasia. No canto da cozinha, perto da fruteira vi os livros da Laura jogados no chão, estranhei, pois haviam ficado no meu carro. Eu tinha certeza!

Quando voltei pro quarto com a bandeija na mão, curioso pra saber dos livros, Ariane estava sorrindo e pulando na cama me convidando pra ir com ela. Sorrimos, nos abraçamos, pulamos, cansamos e dormimos de novo. Exaustos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Isso é só para poetas

Esses dias estava com vontade de escrever uma poesia. Comecei a falar de amor. O clichê dos poetas. Então acho que comecei bem.

Me arrisquei a viajar por dizeres entre aspas, onomatopéias e metáforas nunca antes mencionadas, sentimentalidades fúteis ou não.

Escolhi uma música - aleatoriamente - pra fazer plano de fundo para minha inspiração,

“Verá que, mesmo de longe, tua lixa não me rasga mais.
Teus nós só eu sei desatar. Desiluda-se.
Tua vontade faz querer me encontrar pra sempre. O outro pra sempre.”

Mas não consegui poetizar nosso amor tipo B. Daqueles que todos sonham em não ter.
De acordo comigo, amar é querer somar e dividir, nunca multiplicar ou subtrair. E era demais! Os dois! Os exageros e os meandros de conduta que tínhamos a cada náufrago. E como afundou!

“Afundei-me em cada sorriso teu.
Afoguei-me no teu suor.
Me sufoquei nos teus cabelos
E morri nas nossas lágrimas.”

Bem assim mesmo, nos teus pros seus, dos ‘–me’ pro ‘me–‘.

Mas nada da poesia aparecer! Eu insistia em redigi-la, compô-la, papealizá-la, enletrá-la...
Parei de justificá-la. Seria como equacionar o amor. E esse amor, de fato, não tem solutiva, não tem razão, não tem sentido, só tem um X.

E esse X é de errado.

mas não deu certo, obvio. Não sou um poeta.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sonho, pesadelo e a realidade

Os anos passam rápido demais, mas as semanas demoram muito.
Foi um, dois ou três anos querendo e sonhando com a cumplicidade, imaginando ideais compartilhados. Como é bom viver nos sonhos, né?! Ideologia.
Você já viveu aquela sensação de sorrir ao ver um sorriso? Sorrir tanto de achar que seu peito não vai aguentar, de seus olhos se arregalarem de tanta satisfação? Suas mãos suarem levemente? E tudo por causa de um sorriso compartilhado? E quando o sorriso é acompanhado de um abraço? Aquele abraço que faz o mundo parar, perder a noção do tempo, suas pernas tremerem, esquentar, seus batimentos cardíacos superarem sua respiração. Sabe?

Foi só um pesadelo. Calma.

Dei um pulo da cama querendo saber o que eu tinha sonhado. Estava ofegante e preocupado. Abri a janela pra luz entrar e sentei na cama. Fiquei atrapalhado de sono e com a cara amassada. Fechei os olhos e busquei entender o que tinha acontecido.
Um porta retrato. Um céu azul. Um vestido branco. Um par de óculos escuros. Um abraço molhado. Sal. Vento. Era só o que eu conseguia lembrar. Olhei para o relógio e já estava atrasado para ir trabalhar.

Tomei um banho rápido. Minhas roupas já estavam no mancebo do meu quarto. Peguei as chaves e fui trabalhar sem tomar café.
No caminho, durante o trânsito, olhava - com mais curiosidade do que de costume - os carros que passavam ao meu lado na busca de algum sinal que conflitasse com o meu sonho - supersticioso, ou não?rs - . Passou uma mulher, com seus 40 e poucos anos, se maqueando no espelho retrovisor interno, um caminhoneiro comendo um pão francês com algum recheio, um casal cantando e dezenas de sonolentos e curiosos como eu.
Atrasado por atrasado, resolvi tomar um café na padaria (e um lanche de queijo branco quente).

No balcão reparei a agilidade dos atendentes e a alegria com que trabalhavam, sempre sorrindo e brincando um com os outros.
Do outro lado do balcão sentou uma moça loira, cabelos enrolados, vestida socialmente, maqueada ao tom do rosa mais claro que existe, bonita. E só. Pediu um chá gelado e um lanche natural.

Ela olhava a TV com ar de recriminação ao ver o sensacinoalismo que tratavam as enchentes e crimes pela cidade. Talvez tivesse notado que eu estava a observar seus movimentos, ficou olhando para seu copo de uma maneira que eu sabia que ela conseguia me ver. E ficou assim durante alguns segundos e eu imóvel também.

Nesse momento entrou um garoto negro, com uns 12 anos, camisa do flamengo e um pacote de balas de uvas na mão. Ofereceu de mesa em mesa, de balcão a balcão. Quando chegou em mim o garoto pediu para eu pagar-lhe um lanche.

"- Um bauru e uma coca cola para o menino aqui." - pedi.

O guri, Rafael, morava em um bairro próximo. Me contou que sua mãe havia falecido há pouco mais de 3 meses e que ele e mais dois irmãos precisavam trabalhar para não acabar como o pai - morto por policiais em uma fuga-.

Nesse bate papo rápido notei que a loira ficava a contemplar nossa conversa. Quando olhei pra ela, ela fez sinal de 'sim' com a cabeça e se aproximou.

- Oi menino. Tudo bem? Vi que o papo de vocês estava bom, desculpe atrapalhar. Mas me interessei pelo que conversaram. Meu nome é Hellen e trabalho em um programa de TV e gostaria de saber mais sobre você.

Quando terminei meu lanche, o guri já não estava mais por perto.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Planeta Terra da garoa

Está também cansado de ver os desastres que a chuva está causando? Têm visto as massivas reportagens com jornalistas dizendo e gritando: "A Natureza está revoltada!"? Seus vizinhos colocam a culpa em S. Pedro? É culpa do aquecimento global? Do Governo?

Agora, olha só. O nível da água mundial sempre foi e sempre será o mesmo. Não é lógico? (Desconsiderando a hipótese de importar água de outros planetas.)

1 litro de água evaporado será um litro de água sempre. A diferença é que tiramos a água do solo e não damos espaço pra ela voltar. Cavamos até dezenas de metros para alcançá-la e construímos tudo em volta com concreto e asfalto. Não precisa ser muito inteligente pra entender isso, né?!

Criamos estradas, derrubamos as árvores, construímos barreiras, afunilamos e canalizamos rios. E consumimos água. Muita água! Temos mais pessoas do que 50 anos atrás. Consumimos mais água do que 50 anos atrás e vedamos o chão, o não acontecia 50 anos atrás.

Não adianta criarmos piscinões, aumentarmos a largura dos rios ou colocarmos toalhas nas nuvens. Esqueceram do ditado “tudo que sobe, tem que descer”? Ah vá! É muita burrice.

A culpa não é de S. Pedro, nem da Natureza – ela sempre foi assim: aquece, evapora e chove.- “Ah! Mas agora tem o aquecimento global!” – vão dizer. Ou... “Evapora lá, mas chove aqui.”
Pergunto: Você vai comprar pão a pé ou de carro? Você pratica coleta seletiva? Tem e usa uma bicicleta para meio de transporte (não lazer). Utiliza bens reciclados? Sabe como reduzir poluentes do seu carro? Sabe como foi o processo de fabricação dessa calça que você está usando? Se não soube responder algumas dessas perguntas, a culpa das enchentes é sua. Você é um dos vilões do aquecimento global.

Acredito que com controle e planejamento do consumo, natalidade e progresso as coisas seriam diferentes.
Homem é bicho burro. Ele é culpado. Eu não acredito que tenha mais jeito de consertar. A água vai sim acabar com tudo. Ou melhor, nós vamos acabar conosco. E estamos avançando com esse processo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A merendeira

Eu sempre comi feito um dragão/ caminhoneiro e graças a essa minha habilidade estomacal e degustativa tenho um texto novo para o blog.

Quando estava no ensino fundamental não saia da cantina ou da copa, onde serviam a merenda, por nada. Geralmente eu era o primeiro a entrar e o último a sair, sempre antes e depois do sinal. Por essa minha infância bem regrada tenho essa pança cultivada com carinho.

Havia 3 portas nessa copa/ refeitório. Uma de entrada, outra de saída e uma que ficava atrás do balcão das merendeiras que dava para uma área restrita a funcionários.

Certa vez, em um dia de fome rotineira, ao tomar minha sexta caneca de leite com toddy acompanhado do décimo pão com manteiga, estava a apreciar a movimentação no refeitório quando aconteceu a coisa mais engraçada que já vi na vida. Um garoto arremessou sua caneca no balde que ficava ao lado da porta de saída. Era um balde pra isso mesmo, para deixar as canecas usadas. Porém a caneca deste jovem estava cheia ainda, metade caiu dentro do balde e metade voou no cabelo de uma menina. Hilário. Vergonhoso pra menina e pro jovem desatento, mas nenhum dos dois percebeu, o que tornou a cena ainda mais engraçada. Só não foi tão engraçado como o leite que escorria pelo meu nariz no meio do refeitório. Rindo sozinho. Alto. Quase cai no chão de dar risada, mas eu estava na quarta-série e não tinha moral alguma construída ainda. Como tinha visto o que eu vi, fui zombado pela escola inteira como o garoto que gorfou pelo nariz. Não achei engraçado.

Uma vez, nesse mesmo refeitório da escola, fiquei olhando a reação da galera ao ver o que tinha no cardápio do dia:

- Temos purê e carne moída. – disse a merendeira
- Affff, isso, de novo? Como alguém consegue comer essa ‘nhaca’?
- É o que temos pra hoje. – complementou a merendeira.

No momento, como sempre, achei muito engraçado e continuei olhando a reação do pessoal:
- O que tem hoje, tia?
- Temos purê e carne moída.
- Nossa. Pode colocar pra mim.
- Sim, é o que temos pra hoje.

Fiquei olhando o pessoal pedir, comer, outros saiam da fila, outros faziam cara de nojo, mas era o que tinha pro dia. Fui embora.

Hoje, após ler um texto do Charlie Chaplin “O DIA DE HOJE”, lembrei desse fato da merendeira.
“...Posso reclamar porque está chovendo
ou agradecer às águas por lavarem a poluição.
Posso ficar triste por não ter dinheiro
ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.
Posso reclamar sobre minha saúde
ou dar graças por estar vivo...”
O dia de hoje – Charlie Chaplin

O que você tem pra hoje, você pode mudar? É ruim ou bom, vai ignorar ou resolver, vai fugir ou enfrentar, vai querer o purê ou vai procurar outra comida, vai resolver o problema ou arranjar uma desculpa, vai sair pela tangente ou fazer cara de nojo?

Afinal, todo dia, só temos o purê e carne moída. Que tal?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Antes da luz acender

Pelas madrugadas anteriores, o frio intenso que cortava os lábios era o mesmo que cortava os corações e, de alguns, até confortava. Estranho conflito, em minha opinião.
Enquanto essas noites cortantes corriam pelo lado de fora das nossas vidas, nos cortávamos entre declarações e frases sinceras, machucantes e entregáveis. De certo as ideologias evidenciavam as brutais diferenças dos dois, mas um calor emanava em sincronia, amaciando todos os sentimentos de angústia, insegurança e desconfiança. Do que se trata, afinal? Acaso?

Nunca me considerei uma pessoa controladora, nem possessiva. Isso até ontem.
Foram muitas sinceridades trocadas, assuntos que acredito que poderiam ser facilmente evitados, melhorias sugeridas e raiva. Ódio, descontentamento, decepção, asco, rebeldia Eu quis estar no controle.
O sorriso e o olhar profundo mexiam com todos os meus sentidos, ela conseguia me controlar sem dizer uma palavra, sem fazer qualquer gesto, tudo com o “simples” emanar de calor.
Sem medir as conseqüências, o passado foi sendo jogado sem direcionamento um ao outro como se fosse possível controlar os sentimentos. Do que se trata, afinal?

É diferente de tudo o que eu já experimentei, singular. É certo e intenso. Crescente e dependente, da causa e do efeito. Um contrato sem cláusulas definidas com objetivos subentendidos. Sem certo e errado.
As luzes apagadas acendem a chama de que tudo vai dar certo, o clima estava criado e as nossas músicas tocavam sem parar. Todas elas. Eu não me lembro de nenhuma.
Que o calor não esfrie, que as músicas toquem, nos toque, a quem e quando for, que seus cabelos possam continuar dançando no meu peito, que sua voz seja música em todas as claves, todos os tons e que sua sinceridade seja estímulo aos nossos desejos, que tua pele continue neste tom e sabor meu.
Os cantos que poderiam ter sido nossos viraram retratos em memória, não me abraçam a tristeza e a solidão. O copo está cheio.

O escuro é a única testemunha da verdade vivenciada. Antes da luz acender, podíamos nos ver. Internamente. Interna a mente. A mente não mente. Pelo menos com o breu aceso.
Do que se trata, afinal?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

3 minutos no espelho

Lavei o rosto, as mãos e joguei uma água no cabelo. Não lembro se foi nessa ordem, mas fiz tudo isso.
Apoiei as duas mãos na pia, avancei meu corpo em direção ao espelho e me vi ridículo. Estava completamente bêbado.
Me diverti alguns segundos apagando e acendendo a luz, vendo minhas pupilas se dilatarem e se comprimirem. Acho que foram uns 3 minutos na frente do espelho.

Era mais uma festa universitária, todos aqueles futuros profissionais comemorando alguma coisa. Bebendo como se seus corpos fossem baldes de plástico, fumando como se fossem filtros super poderosos e outros cheirando sem a menor vergonha - o cangote de quem seja -. Continuava a me olhar no espelho, ridículo.
Bateram na porta algumas vezes, mas desistiram.
- Quem é você, cara?! O que você está fazendo?! - Me perguntaram.
- Porra bicho, to me divertindo! Você deveria fazer o mesmo do que ficar aí, se olhando que nem um fracassado.
- E que sucesso se tem absorvendo cachaça que nem uma esponja?
- Cala a boca! Você viu quantas minas estão lá dando sopa?
- Eu vi cara... são esponjosas como você.
Meu debate comigo mesmo foi ficando tenso até que eu dei um murro nele, em mim, sei lá. No espelho!

Ouviram o barulho dos cacos de vidro e da porcelana da pia, não medi a força do apoio e derrubei a pia também. Arrombaram a porta.
- Maluco, que porra é essa na sua mão?
- Não sei cara, eu escorreguei... é sangue, é vidro, é porcelana ...
- É vergonha e cachaça. - Alguém no caco de vidro respondeu pra mim.
Saí carregado do banheiro para a área da piscina, virei o centro das atenções. O DJ abaixou o volume e, quase que no ritmo, minha pressão abaixou junto.
Lembro dos meus amigos agaixados me ajudando -estavam pouca coisa menos bêbados que eu-, a cena estava em câmera lenta, eles davam alguns tapas no meu rosto, apertavam o meu braço, outros vieram ajudar e gritavam por uma ambulância, a minha respiração ficava cada vez mais lenta também, algumas pessoas riam da situação, eu não conseguia expressar o que eu estava querendo dizer, minha fala estava pesada, meus braços também, o sangue não chegou na piscina graças aos panos que me cercavam, algumas garrafas no chão - ao longe - pareciam querer participar da cerimônia, a ambulância não chegava e havia um pedaço de espelho no meu braço ainda. Fixei meu olhar nele.

O vidro refletia o céu azul. O dia estava lindo - e eu ridículo -, dia perfeito para uma festa na piscina. Vi poucas nuvens, não vi pássaros, nem aviões, nem o reflexo de ninguém, nem o meu próprio reflexo -eu não tinha mais nenhum-. Movimentaram meu braço de uma maneira que o espelho refletiu a luz do sol nos meus olhos, fiquei cego por alguns instantes e apaguei.

Acordei num carro de desconhecidos, diziam que me levariam ao hospital. Disseram que eram organizadores da festa, mas não lembro o nome deles. Chegamos. Ao sair do carro, apaguei novamente.

Lembro de sentir as pessoas a minha volta. Eu não conseguia abrir os olhos ou reagir qualquer movimento. Me sentia bem, queria dizer-lhes que eu estava bem:
- Ei galera!!! É zoeira!!! Ta tudo de boas!!!
Mas eu não consegui. Me concentrei, forcei para abrir os olhos e assustei com um espelho na minha cara. Na verdade não era bem um espelho, mas um vidro que cobria o meu rosto.
Me concentrei forte por três minutos e consegui levantar. Vi minha mãe aos prantos dizendo incessantemente:
- Meu filho, lindo.. lind... lin...
- Calma mãe, tá tudo bem! - e a abracei fortemente.
Ela permaneceu chorando e olhava fixamente para atrás de mim, pra minha cama. Perguntava a todos o que estava acontecendo, apenas balançavam a cabeça em movimento de negação triste, mas eu estava ótimo. Quando olhei para minha cama, me vi novamente, dessa vez não havia espelho algum.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Quando eu envelhecer...

Quem gosta de fazer planos, ganha destaque. Quem conclui os planos é destaque.


Você já se imaginou daqui 5, 10 ou 20 anos? Se não, “perca” 10 minutos escrevendo sobre como você se vê lá. Se já pensou, você escreveu?
E 5 anos atrás, você se lembra como se via hoje? (se não entendeu, leia de novo, eu demorei pra entender...)
Bom, eu nunca fiz nada disso. Apenas tenho remotas lembranças do meu futuro.

Quando eu tinha 7 anos, eu achava que casaria com 23 e me orgulhava por ter sido o primeiro da turma do prezinho a aprender a ler. Hoje eu tenho 22, não tenho nem namorada e não estou lendo nenhum livro.
Quando eu tinha 10 anos, eu achava que moraria sozinho com 23. Hoje eu tenho 22 e a única coisa que tenho é um notebook, uma bicicleta (com pneu furado) e algumas contas.
Quando eu tinha 12 anos, eu jogava bola, pulava o portão e nadava como ninguém. Hoje eu tenho 22, vou comprar pão de carro e morro pra subir as escadas rolantes do metrô.

Sou uma decepção para o meu passado. Queria ser herói, mas eu sou eu mesmo.

sábado, 11 de julho de 2009

Caixa velha

Hoje foi dia de mudança em casa. Estou no mesmo endereço, apenas levei minhas coisas pro quarto do meu irmão, que se casou há um tempinho. Agora o quarto é meu.

Mudança lembra bagunça, e dessa bagunça muitas coisas vão pro lixo e alguns lixos acabam mexendo com a gente de alguma maneira.
Revirei meu armário tirando todas as roupas, calçados, meias e todo o resto. Levei tudo para o corredor. Ainda restavam algumas coisas no armário do meu irmão ( que agora é meu ) retirei as gravatas, as meias e um cobertor que não estava no lugar certo, as malas continuariam no maleiro, voltei pro meu quarto, peguei as caixas de sapato que só estavam ali para ocupar espaço e retirei-as, uma a uma. Pegava uma e arremessava no corredor, outra idem, outra rasgava, outra pesada.. Perae! Abri a caixa para ver o que tinha dentro e não havia nada além de lembranças.

Cartas escritas por ex-namoradas, correspondências de antigos amigos, fotos velhas, uns penduricalhos diferentes, papeis irreconhecíveis, entre outros pedaços de recordações, apenas isso. Voltei ao passado por 30 minutos. Tudo passou como um filme envelhecido na minha mente. Estilo aqueles que passam acelerados em tom sépia, com alguns chuviscos.

Pensei muito naquele abraço do amigo que nunca mais aparecerá em outra foto, naquele bilhetinho de juras de amor eterno provavelmente não terá outro com valor igual - mas quem disse que tem que ter? - uma folha frente e verso sem assinar com poesias, dois correios elegantes, um deles sem assinar também, uma foto na roda-gigante, outra foto embaixo d´água, fotos de quando a família era unida com parentes de até terceiro grau, andávamos de scuna quase todo mês, outra foto deitados na sala não importando com quem, nem em que sala. Mas deu saudade.

Não saudade de alguém, mas saudade da época. Tudo era engraçado, hoje as brigas do passado são engraçadas, tudo o que já foi sério ficou engraçado, só eu, que me achava engraçado, fiquei mais sério, talvez ache isso engraçado um dia, mas por hora não. Engraçada essa contradição, não?!

Mas a caixa velha e empoeirada ainda guarda muito mais do que lembranças, guarda uma época fantástica, uma época que não voltará, uma época de amizades infinitas, de pouco dinheiro e muita diversão, de muita diversão e pouco risco, de pouco risco e muita diversão. Guarda ainda meus tempos de insegurança, como era bom não saber das coisas, não que eu saiba, mas as dúvidas de antigamente eram mais sensatas, faziam mais sentido. Ou não.

Hoje eu não tenho uma caixa pra guardar minhas lembranças, tudo está escancarado pra quem quer ver. Todos sabem dos meus anseios indiretamente, não matuto mais as minhas dúvidas, fiquei mais corajoso e mais covarde em muitas situações que não valem ser citadas, mas provavelmente você já saiba ou desconfie, afinal o livro está aberto, então fechei a caixa e o armário.

Minhas recordações não são um lixo, são apenas uma bagunça, e eu que me achava um cara organizado.

Havia ainda muito trabalho a ser feito continuei a limpar os armários e continuar a mudança. Mudança.
E meu irmão, que me acompanhou e viveu muitas coisas parecidas, está casado. Não sei se ele tem, mas talvez todos devam ter sua caixa velha muito bem guardada.
A mudança é contínua.

terça-feira, 24 de março de 2009

É cada uma...

Eu trabalho no décimo andar de um prédio que tem 11.

O hall deste andar é simples e frio. Ao sair pro hall, há dois elevadores e no fim do corredor – que nem dá pra correr de tão pequeno –, ao lado esquerdo, tem uma porta grande que é o acesso às escadas internas do prédio, ao lado desta porta há duas janelas que dão visão para um outro imenso prédio comercial. Todos os dias eu paro uns cinco minutos pra tomar um café e pra admirar detalhadamente essa paisagem.

Ele é mais alto, mas nunca parei pra ver o quanto. Ele é ladrilhado em vários tons de azul claro e azul escuro. De longe não dá pra perceber isso, são como pixels que formam um único tom de azul.

As pessoas do prédio ao lado não se importam em baixarem sempre suas persianas e eu fico olhando todas as salas que eu consigo.

Tem um cara com um computador com uma tela de umas 40 polegadas, parece uma TV. Esse gosta de ver tudo grande.
Aquela tela é realmente bonita, sempre tem um mapa do google maps aberto ou um gráfico que nem imagino do que seja. Não dá pra ler.

Na janela de baixo tem uma menina linda que, por várias vezes, já a peguei segurando o ventilador de frente pra si balançando os cabelos por muito tempo, até não conseguir respirar. É engraçado. Uma graça, ainda vou conhecê-la. Tem uma faxineira, na mesma sala, que sempre derruba panos pela janela.
Na sala ao lado tem um cara que faz malabares com bolinhas de papel. Sozinho. Sem querer fazer graça pra ninguém. Quando comecei a trabalhar aqui ele fazia só com duas bolinhas, hoje já consegue com quatro e arrisca, de vez em quando, com cinco.

Nunca vi nenhum chefe dando uns catas na secretária ou um empregado vendo sacanagem na internet. Já vi comemorações de aniversário – confesso que até eu queria um pedaço daquele bolo – e já vi algumas discussões também.
Em dias de chuva alguns esquecem de fechar a janela e quando se dão conta já está tudo ensopado.

De vez em quando fico imaginando o que essas pessoas gostam de fazer quando não estão no trabalho. A menina do ventilador, por exemplo, com seus cabelos compridos ao vento, deve sonhar ser modelo. Ou pára-quedista? O malabarista talvez queira ser barman, trabalhar com artes circenses, ou não saiba nem o que ele deve fazer na empresa, quanto mais fora. A faxineira deve ter problemas demais e acaba se descuidando, derrubando tudo.

Tem um restaurante aqui na frente onde muitas pessoas destes prédios comerciais vão almoçar e é mais um lugar que eu gosto de ir. A comida é gostosa, a maioria das meninas também, as pessoas são bonitas, o ambiente é agradável e tem uma TV gigante passando Globo Esporte.

Eu fico olhando as pessoas.
Umas aparentam estarem preocupadas demais, ficam remexendo a comida, tomam o suco pela metade, as mãos não saem da testa e a gravata é afrouxada diversas vezes.
Outras dão risada de tudo, a ponto de quase não deixarem-me ouvir a TV ou a conversa do pessoal da mesa de trás.

Por falar nisso uma vez peguei essa galera falando de outras pessoas.
Falaram que o Fernando é viciado em filme pornô. O Julio cola tudo que sai de seu nariz embaixo da própria mesa e a Dona Geni, entendi ser a faxineira da empresa, disse que não limparia “aqueles coisos” por nada. A 'periguete' Fernanda saiu com dois no sábado, um a tarde e outro a noite. O Carlos veio duas vezes bêbado trabalhar na última semana, mas pelo menos fez o que tinha que fazer. Falaram do porteiro, que sempre lança uma cantada pra Isa. Comentaram que tem um cara no prédio vizinho que cada dia ta com um cabelo diferente. As vezes veste social, as vezes parece que acabou de acordar. É meio-loiro-meio-castanho-claro. Vive com uma mochila nas costas e encosta na janela todo dia pra tomar café e fica olhando pros andares de baixo fazendo comentários pra si mesmo. O cara não deve ter o que fazer.

Se tem uma coisa que eu odeio são pessoas bisbilhoteiras que ficam falando e vendo o que as outras pessoas fazem ou deixam de fazer. É cada uma...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Todo carnaval tem seu fim

Quem é que não gosta de carnaval? Mesmo que não goste dos desfiles e de toda algazarra, gosta do feriado. É oportuno falar deste momento de alegria, samba, curtição, azaração, festas, bebidas e crise.
Dizem que o Brasil só funciona depois do carnaval; que este então passe logo. Funcione.
Estou com uma sensação estranha de querer curtir, azarar, de querer passar, de torcer, de ficar confuso, de fazer contas e contas. Contas, essas sim adoram me azarar.
Sempre fugi de qualquer oportunidade ou curso de faculdade que pudesse ouvir a palavra “conta” e lá vou eu contar o quanto odeio fazer contas, cálculos e mais cálculos pra ver se o resultado será divisível por 30.
Dizem também que quanto mais se tem, mais se quer. Acho que essa afirmação tem 50% de verdade. Eu apenas mais quero, mas nunca tenho mais. É incrível o quanto mais água, maior é o bueiro.
Esse mês o aluguel vai ficar pro mês que vem, pois este tem a fatura do cartão de crédito que vem do mês passado. Ando vivendo num malabarismo de papéis, lápis, calculadoras, moedas e humor.
Que crise! Isso me faz lembrar de namoro, namoro é que tem crise. Eu não. Tinha.
Mas de nada vale ficar chorando as pitangas. Ainda tenho que ir à feira.
Hoje o texto é curto, assim como a minha verba. É pequeno, simples e direto, assim como o saldo da minha conta bancária. Hoje o texto está mais do que incompleto. Está.
Bom carnaval pra todo mundo!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O tempo, a chuva e o chafariz.

Era quinze de Abril.
Depois de uma noite mal dormida, um ‘ontem’ pior ainda, nós estávamos no banco do gramado do parque vendo os patos comendo a grama que estava invadindo o lago pela margem.
O reflexo da ponte, que cortava o lago, na água, era fantástico. Nesse momento os esguichos do lago, que faziam uns desenhos bonitos no ar, estavam desligados. Podíamos ver mais dois casais do outro lado fazendo a mesma coisa que nós, ouvíamos as risadas das crianças que andavam de bicicleta pelo parque, mas eram quase cobertas pelo barulho das árvores balançando.
Estava sol, mas estávamos à sombra. Não estava muito calor e o vento estava gostoso.
- No que você está pensando? – ela me perguntou
- Em nada, por quê?
- Depois de ontem, consegue não pensar em nada num lugar assim?
- Quer dizer algo? No que você está pensando?

Eu não estava pensando em nada mesmo, só estava curtindo o lugar onde estávamos. E do mais, achei que aquele assunto estava encerrado.
Nos “desabraçamos”, ela pediu para sentarmos um de frente pro outro. Ela segurou as minhas mãos, mediu cada parte do meu corpo e olhou pra mim fixamente. Durante uns 5 minutos. Em silêncio.

Nesses 5 minutos deu tempo de fazer uma retrospectiva desde quando havíamos nos conhecido. Fiquei olhando pro nada durante esse tempo.
No início eu não gostava muito dela, pra ser bem sincero eu tinha uma antipatia que nunca tive por ninguém. Garota mimada, que se acha, diz coisas meio sem nexo e nem era tão bonita assim quanto os outros diziam ser.
Eu não conseguia ficar no mesmo ambiente que ela. Ela chegava falando alto, abraçando todo mundo, - realmente ela era bem popular, nunca tinha ouvido alguém falar mal dela – e eu nunca gostava de nada que ela fazia. Pra mim ela era muito artificial. Um dia ela veio falar comigo:

- Ei... você não é o rapaz, amigo dos garotos daquela banda de rock?
- É.. Eu sou o “ R A P A Z ” amigo deles sim.
- Posso me sentar com você?
- Na verdade não, tenho ânsia só de ouvir a sua voz. – eu pensei – mas acabei dizendo:
- Pode, claro!

Encontramos-nos no Intermunicipal Circular - 154, no centro de São Paulo e por infelicidade minha, ela iria para o mesmo lugar que eu. Desceríamos na estação de São Caetano e, por mais uma maldição do destino, ela pegaria o mesmo ônibus que eu pra casa dela, e, se desgraça pouca é bobagem, falou que desceria depois de mim. Parecia que ia chover, mas no caminho não choveu e não pegamos muito trânsito, ainda bem!

- Vi você junto do pessoal da banda várias vezes, mas nunca fomos apresentados.
- É...
- Então, você os conhece da onde? Você toca algum instrumento? Nossa, eu adoro a banda deles! Comprei até um violão, mas acho muito difícil tocar. Você pelo jeito também gosta, né? Teve um baile que eu fui e eles tocaram, não sei se você estava, nossa! ...

Pelo amor de Deus, alguém costure a boca desse papagaio-humano!
Na minha vida eu já conheci garotas que gostam de falar, vendedoras de Yakult, Avon, Herbalife, vizinhas fofoqueiras e tias futriqueiras, mas gostar de falar que nem essa garota, eu nunca tinha visto igual.
Eu tinha acabado de almoçar, estava com sono. Minha cabeça estava quase explodindo a dela. Sabe quando as pessoas falam com você e você só responde “Aham”... “É?!” ... “Hum... poxa!”, mas na verdade você nem imagina do que ela está falando? Foi assim durante 35 minutos dos 40 que passamos no ônibus vindo pra São Caetano.

Na estação de São Caetano, tive certeza que desceria uns 5 pontos antes do meu pois não agüentaria tanto tempo com ela.

- Bla Bla bla... Bla bla bla... Bla bla bla...
- Humm... poxa!
- Bla Bla bla... Bla bla bla... Bla bla bla...
- É?!


Desci. Passava das 15:30h.
Ahh! Que alívio!
Viaturas policiais, as sirenes soavam como canções! Latidos, isso! Latam! Latam mais! Depois de descer daquele ônibus, descobri que adoro cães bravos, caminhões de lixo, buzinas e feira livre!

Então olhei para aqueles lábios falantes que já não diziam muita coisa havia um tempo e me aproximei. Eles estavam molhados, assim como seus olhos e o resto de seu rosto. Os esguichos do lado acabavam de ser ligados. Mas não pude chegar tão perto...

Andava já há uns 10 minutos, quando mudei de calçada e vi de longe, vindo em minha direção, uma moça. Pensei: “Que broto!" – e ri sozinho
Ela foi se aproximando e quando cheguei perto não acreditei:

- Ué ?! Não ia descer quase no ponto final? - perguntei
- Na verdade eu moro duas quadras da estação. Resolvi dar uma voltinha de ônibus... e o nosso papo estava tão bom! Daqui vou a pé mesmo.
- Humm...
- ...
- Bom, então ta...
- Ta... Então nos vemos por aí...
- É... Acho que sim...
- Tá...
- Ta... então tchau.
- Tchau...


Segui meu caminho e ela seguiu o dela, experimentei dar uma olhada pra trás, não sei por que. Ela fez a mesma coisa e me mandou um tchau de longe.

Mais à noite, como de praxe, fui acompanhar a banda dos meus amigos que tocariam num clube perto de casa. Senti, apesar de que era evidente, que a encontraria.
Quase uma da manhã, o salão estava lotado de pessoas, não havia ninguém sentado. Animação frenética, como sempre eram os shows deles. Eu estava com alguns amigos, que hoje, talvez, nem se lembrem de mim. Conversando, rindo, flertando, como acontece em qualquer outra festa.

- Ei... Pegou chuva? – me cutucaram perguntando.
- Não. Não peguei, por quê?
- Nossa! Depois que nos despedimos, acabei pegando uma rua errada quando ia pra casa. Dei uma volta enorme pra me encontrar e começou a chover. Passou um carro numa poça, me molhou toda, aí acabei tropeçando numa garrafa vermelha, acho que era de vinho, aí....
- Aí você se achou e chegou em casa, né? –
atravessei pra resumir
- Não... Você nem imagina... aí... quando eu achei que tinha me achado veio um cachorro...
- To ferrado! De novo. –
pensei.
Com aquela barulheira, acabamos indo “conversar” - entre aspas, porque só ela falava - lá fora do salão, perto das piscinas.
Durante nossa conversa vieram várias amigas e amigos dela que a procurava pelo salão e ela sempre dava um jeito de dispensá-los.
Ela me contou que seu cachorro chamava-se Thor, mas havia o deixado na chácara, pois era muito grande. Que sua avó morava no centro de SP, que sua fruta preferida era maçã, que a melhor professora dela foi a Dona Helena do pré-três, que sua cor preferida era amarela, que queria ter dois filhos, que comprou uma blusa verde, mas quando chegou em casa não gostou e foi trocar por uma branca no dia seguinte, que gostava de sorvete de flocos, que nunca havia repetido de ano, que não gostava de rock, que estava apaixonada por mim, que ?!

- Que?! – perguntei assustado
- É... faz um tempo que...

Ela olhou pra baixo e quando olhou pra mim de novo já veio me beijando.
E eu não impedi. Lógico! Era uma das garotas mais cobiçadas da época (meus amigos morreriam de inveja e as outras garotas, que eu queria um lance, ou sairiam comigo pra se promover – afinal eu beijei a garota mais popular, logo meu nome estaria aos ventos por aí – ou ficariam com raiva de mim, tem loca pra tudo), e o principal!!! Ela, me beijando, ficaria sem falar por um bom tempo.

Era quinze de abril, 3:45h da manhã, começava a chover e as gotas do chafariz nos molhava inteiros como naquela chuva 25 anos atrás. Chamamos as crianças que estavam andando de bicicleta, levantamos do banco, nos abraçamos e fomos pra casa.