quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Ideologia, eu quero uma pra viver.

Eu gosto de histórias de amor com finais felizes (e com outros tipos de finais também).
Histórias de amizade e histórias de família também me agradam. Histórias de admiração e de respeito me empolgam. Quando enxergo sinceridade e consciência, acho fantástico.

Parei para pensar nas últimas histórias que tenho ouvido e poucas delas me provocaram bons sentimentos. (Na verdade não me lembro de nenhuma boa história, mas, para não ser tão generalista, vou dizer que poucas foram positivas.)

Eu vivo num dilema entre: o que é exatamente real pra mim e o que é exatamente real pro outro? E isso, muitas vezes, é frustrante.
Vejo as pessoas correndo pra lá e pra cá, sem tempo pra nada. Sem tempo para um conselho, sem tempo para um abraço, sem tempo para o filho, sem tempo para o namorado, sem tempo para os amigos, sem tempo para não fazer nada, sem tempo para olhar o tempo. Afinal, para onde estão correndo? Porque? Até quando?

Vejo situações de completo desrespeito. No trânsito, na empresa, nas casas, ao vivo, no youtube, etc... Afinal, onde estão os valores e princípios? Existe isso? Ou é uma fantasia minha?
Tenho uma preocupação infinita para não fazer parte desse grupo que enxergo como 'corredores alienados'. E não quero ser pejorativo na forma da citação, mas é que, com tantas cobranças, com tanta ambição, com tantas regras a serem cumpridas, com tanta competição, parece que se esquecem / não se preocupam / não têm tempo para avaliarem os porquês. (E precisa?)

Será que é manipulação, alienação? Ou ambas andam juntas?
Merda! Isso é muito complexo. Eu sinto que não tenho condição e estrutura pra conseguir chegar a uma conclusão. Será que eu estou errado? A ignorância é realmente uma dádiva?

Por mais que eu tente enxergar as 'coisas lindas do mundo', vêm esses pensamentos de que tudo é podre e que o dinheiro manda nas pessoas.
Em mim não, não em mim! (Quero acreditar nisso).

É muita prepotência minha considerar as pessoas 'medianas' ? (sendo bem positivista na avaliação).
Mas é assim que enxergo a maioria delas: Estudando para conseguir um bom emprego. Em um bom emprego para pagar os estudos e, com estes, poderem continuar no bom emprego. Emprego para pagar o carro, o carro que leva para o trabalho. Dinheiro para conseguir mais dinheiro. Essa roda não tem fim? Que pressão é essa? Porque viver nessa "correria"?

Cadê as histórias de amor? As histórias das vitórias coletivas? Cadê a poesia nisso tudo? É fantasiar demais? Isso nunca existiu e eu fui iludido? Sério que tudo isso que eu imagino é uma grande mentira? Minha visão está deturpada? Como você enxerga tudo isso? (Não me venha com "é assim mesmo" e outros conselhos clichês... economize a minha paciência.)

Quero acreditar que não estou enganado.
Quero acreditar que eu posso desenvolver um bom trabalho, para conseguir um bom dinheiro para manter confortavelmente a minha família, que eu consiga fazer viagens, que meu trabalho seja relevante, que eu possa ajudar o maior número de pessoas a conquistarem mais conhecimento, que este conhecimento as guiem pelos verdadeiros caminhos delas. É utópico?

terça-feira, 15 de maio de 2012

O garoto que não conseguia sonhar I

Eu não tenho sonhos.
Há muito tempo venho pensando nisso.

O que eu quero pra minha vida? Como estarei daqui há alguns anos? Quanto esforço terei de dispor para alcançar o que almejo? O que eu almejo?

A primeira lembrança minha que tenho como gente, beira os meus 13, 14 anos, quando eu ia e voltava da escola sozinho de ônibus ou de bicicleta. Apesar da superproteção da minha mãe, ela, de certa forma, confiava em mim e na minha sorte (que eu adorava abusar).
Tantos amigos visitavam a minha casa, jogávamos bola na rua, no parque e na escola. Entrei na aula de violão e, a partir daí, encontrei uma paixão. A música.
Não sou virtuoso, nem tão pouco estudioso, mas gosto. E foi uma das poucas coisas que gostei, de fato, na minha vida. Nunca gostei de carros, não gostava de tecnologia, nunca fissurei em celular, roupas de marca, nem acessórios de vestuário, nem de séries de TV. Eu gostava do meu violão, dos passeios de barco com a minha família e de me reunir num estúdio com a minha banda. 

Ah! Eu gostava também de colorir aquelas revistas pra criança, até hoje ainda gosto. Uma vez meu tio apareceu com um anúncio de revista em casa e eu fiquei impressionado com aquelas cores.- "Serei publicitário". - Pensei, desde então. Sem uma completa noção do que era um publicitário, obviamente.
Consegui o meu primeiro estágio aos 14 anos em uma agência de publicidade como aprendiz de designer gráfico, nunca abandonando minhas bandas que, ao longo do tempo, foram se desfazendo por conta de mulheres, por conta de "falta de tempo", por brigas ou por desinteresse mesmo. Mas a música não saia de mim, nem eu dela.
Qualquer lugar que eu visitava, bar, casa de num sei quem, eu sempre tinha um olhar clínico pra perceber se havia instrumentos musicais no local e também reparava na comunicação visual dos mesmos. Dois quadros, um vaso sem o menor nexo, chão manchado, um case de violão. Eu reparava em tudo. Não se estava arrumado ou desarrumado, mas se haviam cores combinando ou alguma peça musical.

Conheci minha primeira namorada.

... continua ...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Carta não perecível

Esse texto não tem muita coisa de diferente não. Fala de amor, de choro, de raiva e de angústia sentimental. Todo aquele bla bla bla que, se você leu outros textos, já sabe como funciona.

Eu escrevi essa carta olhando velhas fotografias, bilhetinhos, e-mails e ouvindo uma música instrumental triste, tocada em piano e percussão somente. Só pra dar aquele clima meio roxo e triste, como os filmes fazem.

Olhei para nossas fotografias, reli nossos e-mails e trocas de mensagens num ritual macabro de auto-sabotagem, mutilação e repúdio de um passado parcialmente verdadeiro, traduzindo ao sumo a dor e todo rancor dos nossos arrependimentos, disso entendemos. De arrependimentos.

Eu e você, na real, gostamos de sofrer. Ai de você, se você não concordar! De ver o que não gostamos, de dar aquela olhadinha pra ver como está, se está, enfim. 'Curiosiar' a gente sabe bem o quê. Que seja a rede social, ou se andou fazendo novas amizades por aí, postou alguma coisa no blog, enfim, futricar. E quando damos de cara com algo que não gostamos... dói.

Queremos encarar os problemas de perfil. A dor, de certa forma, satisfaz a nossa curiosidade. Que idiotice, não?! Trocamos uma interrogação por uma lágrima, ao invés de mudarmos o foco. Já ouvi muito esse conselho. Já te dei esse conselho e você já disse isso pra mim muitas vezes. Brincamos conosco. Somos uns lixos!

Seria clichê falar dos climas fazendo elo com nossas emoções, mas eu gosto e acho bem plausível para o momento.

E esse calor que emenda os amores, como numa fundição o aço é unificado?Aquela sensação que a gente confunde com nossos pensamentos, se entrega sem medo do 'e se...'. E vai. E quando pensa, já foi.Insisto em dizer que o começo do ano é onde os amores nascem, no inverno se aproximam e no final do ano se desfazem. Não sei se é lógico, matemático ou puro azar sobre as coisas que eu vejo ou vivenciamos, mas tenho isso pra mim como 1 e 1 são 11. 
Tudo é violável e substituível, exceto meu amor sem prazo de validade.


Uma vez me disseram que é normal sofrer por amor, que todo mundo sofre, sofreu ou vai sofrer um dia. O melhor disso é que a dor não dura pra sempre. Vamos pagar pra ver até onde nosso orgulho e sofrimento nos levarão?

Escrevo para não transbordar minhas emoções em nossas recordações.
Dói, ainda dói sim, dói demais esperar o telefone tocar e você não mais me ligar.
Dói não ter sua poesia expressa na minha caixa de entrada.
Dói, ainda dói sim, dói não ter o seu cheiro no meu travesseiro.
Eu quero mais uma hora com você. Mais 60 minutos de conversa e daqueles beijos que só a gente sabe trocar.
E mais a vida inteira pra gente repetir tudo isso quantas vezes quisermos. E pelo que te conheço, serão muitas.
Me liga, pode me ligar! Faça valer o que dizia sem parar, que só o amor basta pra ficarmos juntos. Que isso é fora do normal e que a gente se completa. Suplico, nessa carta, em forma de última tentativa que a gente fique juntos. Eu quero! Eu quero! Eu quero que você queira também. Pense nisso?
Me liga, pode me ligar! Faça valer o que dizia sem parar.

Beijos,
seu amor.

P.S.
Não ligo se pareço fraco. Você me conhece quando estou forte, sei que não se esquece disso!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Inventor

Cabelos pretos e bagunçados, típico de maluco. Andava de um jeito acelerado. Atrasado, derrubava os papeis pelo salão principal do prédio que morava.
Enquanto pegava um ponhado de papel que caia, derrubava as chaves de casa e do carro, perdia mais tempo se apressando do que se arrumando. E não ligava pra nada disso.
Por diversas vezes deu de cara com o vidro que separava o hall do prédio da escada da portaria. Mas nem se dava conta, achava tudo normal.
"Bom dia, tudo bem?!" tímido, representava isso só com um balançar da cabeça, pro porteiro e pra moça do Yakult. Abria o porta malas do carro e arremessava toda papelada e sua mochila lá. Do jeito que caia, ficava.

Ele sabia que era motivo de chacota da molecada do prédio e percebia que alguns adultos evitavam entrar no mesmo elevador que ele, mas não se abalava a princípio, mudava o foco do pensamento e já lembrava de alguma canção. Só queria chegar ao seu destino e fazer suas coisas. O resto era só o resto mesmo.

No toca fitas do seu carro tocava artistas que só ele conhecia. Canções de blues, rock anos 80 e, em dias mais cinzas, desligava o som. Na ida ou na volta também curtia as rádios AM que ficam passando notícias o dia todo.
Ele odiava semáforos vermelhos, calculava sua velocidade para pegar todos verdes até a avenida principal. Aí de lá fugia de seu controle. E no controle ele queria estar sempre. Gostava de prever, calcular hipoteses e arriscar. Não era um cara de muitos amigos, mas era admirado por quem "o conhecia". Uma pena ele não saber disso.

Ele morava sozinho, não se sabe como chegou ao condomínio, raras vezes pedia uma pizza e recebia uma visita. Os volumes de seu apartamento eram moderados e suas contas estavam sempre em dia.
Não gostava de baladas, nem de televisão. Não bebia e não fumava.

Aos domingos, colocava sua bermuda azul escuro de 'tactel', seu tênis branco e uma camiseta qualquer para caminhar no parque. Saia pontualmente às 7h para caminhar. Dados exatos 30 minutos de caminhada, ele se sentava em um banco onde o sol podia alcançá-lo e ficava olhando.

Seus óculos embaçam por causa do suor, arrisca ficar sem eles por diversas vezes, mas só enxerga cores em movimento. Desiste, recoloca os óculos, apoia os cotovelos nos joelhos, cruza as mãos cutucando uma folha e olha, só olha. Olha tudo a sua volta.

A garota de patins, o gordinho suado, o bombado na barra, a molecada com uma bola, um casal com o cachorro, o chafariz, a menina e seu livro na grama, o garoto com seu violão, o gurizinho e sua pipa,  a gordinha e o sorvete, o ambulante e sua pochete, a gostosa de sainha, a bicicleta e a corrente, a senhora e sua garrafinha de água, o grupo de dança, o segurança e seu rádio, a faxineira e sua vassoura, a nuvem e o céu, o vento e as árvores, ele, o banco, tudo isso e seus pensamentos desalinhados.

Levanta, decide caminhar mais um pouco, dessa vez no contra-fluxo dos que estão correndo.
Leva algumas esbarradas, mas segue firme. Repara alguns olhares de reprovação por estar na 'contramão', mas não para. O ritmo dos seus passos começam a ganhar velocidade e segue. Olha para o chão e olha pra frente respirando em bit acelerado. Conta quantos passos está dando e quantas pessoas passam por ele. Metódico, inventando novas manias. Quinze passos e 8 pessoas. Três mulheres e cinco homens. Trinta passos, vinte pessoas. Segue aumentando o ritmo e levanta o pescoço para que o vento refresque seu rosto. Um, dois. Um, dois. Um, dois. 
Adora a sensação.

- "Cuidaadoo!" - Alguém grita.

Ele tropeça em alguma coisa e cai. Por lá fica alguns instantes.
Alguns riram impulsivamente.
Outros se desesperaram.
Alguns fingiram que não viram.
Outros ficaram com pena.
Alguns acharam 'bem feito!'.
Outros queriam ajudar.
Alguns sabiam o que fazer.
Outros não arriscaram estender o braço.
A maioria se aproximou pra ver o que estava acontecendo. E só ficaram olhando. E olhando.

Ele abriu os olhos calmamente, não dirigiu uma palavra a ninguém. Levantou pacientemente, recolocou seus óculos levemente retorcidos, olhou a expressão das pessoas que estavam ao seu redor, com os braços abriu espaço para passar no meio daquela muvuca, ouviu um pedido de desculpas sendo gritado ao fundo, um burburinho qualquer e seguiu curtindo o vento em seu rosto. Ganhando velocidade no contra-fluxo. Um, dois. Um, dois. Joelhos e cotovelos levemente ralados ardiam e se refrescavam na brisa que recebia.
Quanto mais rápido, mais refrescante, menos dor.
Quanto mais lento, menos refrescante, mais dor.
Pensou.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Trinta e uma linhas

Eu tenho dois segredos que guardo no meu peito
Um é poesia, outro uma canção.
Prosa, rima e versos suaves para o ouvido
Peso, melancolia e desespero para o coração.

Um tem o ritmo que quisermos recitar
Outro tem levada forte que não dá pra controlar.
É canibal e doloroso, é sereno e prazeroso.
É certeza e quente, é duvidoso e inconsequente.

Eu tenho dois segredos que guardo comigo
É catástrofe e confortante, é paz e perigo.
É pressa e ansiedade, é garoa com sol no sábado a tarde.
É heterogêneo e uniforme, é um mix que não dorme.

É agito da madrugada na mata do interior
É silêncio na balada, o frio que passa calor
É segredo e não conto,
É um grito de amor, um conto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Não falo nada

Lugar maravilhoso. Céu azul e limpo. Montanhas e montanhas de areia ao fundo. Vento muito sutil. Só ela e eu.
Dançavamos empolgados por uma substância que deveria ser proibida, mas arranjamos um esquema de sentir tudo aquilo.
Eu de boné, ela de presilha no cabelo. Puxei ela pra mim e, levemente, joguei seu corpo pra trás, segurando em sua cintura. Ela levantou uma das pernas e quase tocou seu cabelo no chão. Uma dança bonita, evolvente e muito gostosa - pelo menos pra gente era -. Ao retornarmos a dança, a sensação foi violenta e arrebatadora. Senti suas unhas elevarem minhas costas até a minha nuca e eu segurando seu rosto e seu pescoço tudo junto, com as mãos encaixadas em suas orelhas. Nos beijávamos sem parar.

- "Essa parada é muito boa!" - Eu pensei.

Ensaiamos mais alguns passos. Estava muito quente. O tempo, o sol e a areia.
Mentalizei fortemente todas aquelas caras que ela fazia, para eu nunca mais esquecer. Eternizei em mim as imagens e aquela sensação. Penso nunca mais conseguir tanto prazer.

Entramos no mar e lá brincamos e dançamos ainda mais. Aquela sensação de alegria só ia aumentando. Tinhamos conseguido uma droga poderosíssima! Capaz de trazer alucinações, vertigens, prazer intenso, vontades absurdas de fazer qualquer loucura. O amor é, pra mim, a pior droga descoberta.

Voltamos para nossa casa em SP e seguimos nos amando, nos preenchendo, nos confortando, nos apoiando, enfim, tudo aquilo que uma droga pode trazer de bom. O tempo foi passando e as dosagens foram aumentando desenfreadamente, era demais! E eu queria sempre mais! Ela, aparentemente, também! O que eu não tinha conhecimento, é que uma droga, depois de um efeito prolongado, ela causa diversos tipos de danos a diversas pessoas, não só aos usuários, mas à família, amigos, etc. Todos envolvidos indiretamente acabariam tendo algum tipo de transtorno.

O tempo passou numa velocidade incrível que não percebi que meu vício havia se tornado um incômodo.
Os problemas cegados inicialmente vieram a tona numa explosão avassaladora de volumes altos, melancolia, sentimentos de culpa, tristeza, arrependimentos, despejos de agressão e ferimentos incicatrizáveis. Como dizem, é muito difícil largar uma droga. Senti isso na pele. Sinto ainda, eu acho.

Decidimos parar, por um tempo, de continuar o uso desse entorpecente e nos afastamos.

Estive contaminado, adoeci, surtei, eu precisava daquilo tudo de novo, em doses controladas, para me manter saudável e desfrutar o prazer absurdo que ela me oferecia. Estava em reabilitação, monitorado pela minha consciência, pelos meus receios de tanto transtorno causado na minha vida.

Abstinência quebrada. O vício, acreditava eu, estava sendo controlado, mais uma ilusão.
O sol que brilhou trazendo-a pra mim, foi o mesmo que ofuscou sua visão e a colocou em sua escuridão. Eu queria estar lá, pra fazer tudo certo dessa vez, eu queria que ela fosse capaz disso também, mas o que é certo? O que é ser capaz? O que é essa droga? Existe uso controlado? Dá pra criar tantos acordos assim?
Não sei as respostas de muitas perguntas, evito errar, mas arrisco, no meu tempo, para, enfim, acertar. Foi assim mesmo, cheio de vírgulas. Espero não ser mais. Eu. Assim.

Eu falaria sobre o tempo. E o quanto ele é importante com diferentes significados pra cada pessoa. Preciso do meu. Você precisa do seu. Eles precisam do tempo deles. Suas decisões são tomadas no seu tempo. As minhas, no meu. Talvez exista um meio termo. Ou não. Existe uma receita, um manual?
É obvio que meus amigos e parentes me apoiarão em minhas ideias. Eu as construí, eu as vendi. Todos vão apoiar minha decisão, menos o meu coração. O mesmo vale pra você. Pra ele. Pra ela. E quando a consciência pesa, não há amigo, mãe, médico ou pai que tirará essa dor. Talvez resolver seja solução. Talvez.

Eu não entendo nada do amor. Achar que entende ou entender mais ou menos, é muito pior que assumir a ignorância. Torna-se ainda mais egoísta e orgulhosa a pessoa que não querer lidar com as situações formadas entre ambos. As situações nunca são ditadas somente por um lado. Críticas desordenadas conduzem, quase sempre, ao cinismo. E é aí que a razão se perde. Em meio as ironias e volumes desajustados.

O sol vai nascer, brilhar, se pôr e nada que fizermos vai mudar isso. O que temos em mãos, cabe somente a nós decidirmos o que fazer. Não fazer nada também é uma escolha. Boa ou ruim? Não sei falar sobre isso.

Eu falaria sobre filosofia, falaria sobre psicologia, falaria sobre a origem do mundo, mas eu não entendo de nada disso também. Eu falaria sobre nós, falaria sobre você, falaria sobre mim, mas eu também não entendo nada. É só sobre isso que eu falo. Que não sei de nada. Que eu não entendo nada. Sou incompleto.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eu queria ser um segredo

O desconhecido é sempre um segredo que alguém não revelou. E quem não é curioso o bastante para se interessar por um segredo? E se esse segredo for seu e nem você mesmo conheça o conteúdo?

Metade da minha vida utilizei umas máscaras para conseguir algumas coisas: amigos, um emprego, uma garota, um real, uma hora de atenção, enfim... usava todo aquele arsenal de personalidades que um ser humano pode utilizar, as famosas "máscaras". Famosas máscaras que ninguém gosta de admitir que usa.

Fechei o livro deixando o marcador de páginas na 46, faltava ainda mais da metade pra terminar de lê-lo. Fui atender meu celular e recebi um convite inusitado em pleno início da madrugada. Topei!
Quinta pra sexta-feira, coloquei minha fantasia de baladeiro e saí com a Laura, amiga que saio desde que tenho uns 14 anos, passei na casa dela e fomos a um bar jogar sinuca.


Lá encontramos alguns amigos meus e amigos e amigas dela. A maioria, por sinal, já se conheciam, só eu não sabia desse universo de amizades em comum. A princípio foi divertido.
Com o passar das horas e das bitucas arremessadas na sarjeta, minha fantasia de baladeiro foi se desfazendo e eu fui colocando a minha fantasia de conquistador. O porque, ao certo, não sei. A troca foi suave, mas rápida, poucos amigos próximos perceberam.
Ainda na área de fumantes, pendurei um sorriso falso abaixo do meu nariz para me aproximar dela. Ela me olhou três ou quatro vezes seguidas com aquele aspecto: "Você vai vir aqui perto mesmo? Ah.. por favor, não!"... e eu senti que ela também pendurava um sorriso falso quando a abordei e iniciei um papo qualquer.

Chequei no meu banco de dados um assunto que possivelmente pudesse surpreender, impressionar... hum.... em vão. Todos os assuntos que eu dominava, ela também dominava e quando ela arriscava algum papo diferente, eu sabia do que ela estava falando. Isso se tornou engraçado. Como um bom estrategista, aproveitei esse gancho. Tínhamos muitas coisas em comum. Conversamos durante quase uma hora sem interrupções -somente para encher o copo-.
Eu só percebi que não estava mais com a fantasia de conquistador quando eu quase avancei para beijá-la. Minha ideia inicial era que acontecesse o contrário. Foi quando decidi ir embora. Talvez a fantasia dela de conquistadora tenha sido mais elaborada. Vazei.

Logo pela manhã do dia seguinte, voltando do centro de São Caetano, encontrei minha amiga Laura no semáforo da Av. Goiás com a Amazonas. Na verdade ela me encontrou. Ela estava voltando do curso de inglês a caminho do ponto de ônibus. Quando parei no semáforo, tomei um puta susto com ela batendo no vidro: 
- Ae cabeção, me dá uma carona!

Ela entrou no meu carro sorrindo e perguntando com uma fantasia de ironia:

- Pra onde você foi ontem que nem me deu tchau?
- Ué... eu fui pra casa, por que?
- Sei.. pra casa... fala a verdade!
- Fui pra casa mesmo... sério. Eu estava com dor de cabeça de ficar lá.
- Hum. Tenho um recado pra você.

Passou pela minha cabeça que algum amigo meu quisesse falar comigo, sei lá, mas foi um recado estranho. Eu não estava fantasiado de 'Cara Preparado Pra Receber Um Recado' e deixei minha face responder o quão feliz e confuso fiquei com a notícia.
- Ihh... pelo jeito você gostou dela também, né?! - Laura me disse.

"Malditas expressões corporais! Logo eu que fico analisando todo mundo deixo escapar uma dessas! Fraco!" - pensei.
- Aham... normal. Achei ela legal. - respondi.

Contei algumas coisas que conversamos, ponderando nas palavras, vestindo um verdadeiro traje 'mediador', de maneira que ela deixava escapar algumas informações que eu julgava importantes para minha, então, quase conquista.

Quando chegava perto da casa de Laurinha, ela pede para eu encostar o carro porque quer me contar uma coisa. Senti que ela vestia uma dramaturga de segunda. Suspense!

- Edu, o que você tem?
- Como assim?
- Sério, você fica sempre na defensiva. Se abre comigo. Eu sempre falo tudo pra você, sinto que não é recíproco. Espero que não se ofenda, mas eu gosto muito de você e acho, sinceramente, que você também tenha uma consideração por mim.
- La, de boa, não tenho nada, sério. Adoro você, óbvio, mas não sei do que você está falando. (fantasiado de sínico)
- Tem um tempo que queria ter esse papo com você. Do que você tem medo? Por que se esconde tanto dentro de si mesmo?
... fiz uma pausa tenebrosa. Ela havia quebrado mais um disfarce meu e eu não conseguia pensar em nada pra virar o jogo. Há algum tempo eu vinha percebendo que minhas máscaras ficavam cada vez mais fixas em mim. Arrisquei:
- Então, Laurinha, não sei porque você tem essa impressão. Eu conto as coisas da minha vida sim, só que não são do modo como você conta ou, talvez, do modo que você gostaria de ouvir.
- Hum... - silêncio -. Beleza. Podemos ir nessa.

Ela se voltou pra frente e colocou o cinto esperando que eu ligasse o carro. Óbvio que percebi a decepção dela com a minha resposta "grosseira"... eu diria "direta". Fomos em silêncio até a casa dela.

- Tó. Esse é o telefone da Ariane. Ela falou pra você ligar pra ela. Desculpe se te incomodei.
- Tranquilo. Valeu.

Arranquei com o carro e vi, pelo retrovisor, ela sentando em frente sua casa, fitando meu carro. Não entendi porque não tinha entrado pra casa... então resolvi dar a volta no quarteirão pra ver se estava tudo bem mesmo.

Passando novamente pela casa dela, estava somente o material do inglês. Achei estranho. Olhei pra todos os lados da rua, fui atrás da caçamba de uma obra que acontecia na rua dela e nada também. Dei uma olhada entre os tapumes da construção, mas estavam bem fechados. Peguei seu material e toquei a campainha uma vez. Duas vezes. Pela terceira vez e.... desisti. Aguardei uns cinco minutos na rua pra ver se ela aparecia e nada... Pensei em ligar pra ela, mas, pra variar, meu celular havia ficado embaixo da minha cama recarregando a bateria.

Eu sempre ando com um cartão telefônico para certos imprevistos, porém eu não sabia o telefone dela decor. Procurei rapidamente alguma coisa no material dela, vi que tinha um livro do mesmo autor do livro que eu lia, mas não achei mais nada. Foi quando veio o 'click!': "Vou ligar pra Ariane, explicar a situação e pedir o telefone da Laura. Vou parecer ridículo, mas dane-se. Vou com a fantasia de 'não me importo com nada' e é por uma causa boa."

- Ariane?
- Alô? Ela mesma, quem é?
- Oi Ariane, é o Eduardo... amigo da Laura, sabe?
- Eduardo...? Eduardo...?
"Pra cima de mim não! hahahaha" - Pensei. Eu sabia que ela sabia quem era, lancei:
- Ah.. Nada não... Deixa pra lá, então. Eu~
- Não! Não! O Eduardo de ontem do bar, né?! Da sinuca?
- Isso.. eu mesmo. (risada maléfica interior: Muaahahaha! I´m win!)

Ela me contou que acordou bem, não tinha notícias da Laura, mas que tentaria ligar pra ela.
Ariane estava morando na casa de uma tia solteira, aqui em São Caetano mesmo, ambas dariam uma festa naquela noite e me convidou. Disse que convidaria Laurinha também.

Passei a tarde inteira dormindo me recuperando da noite anterior e pensando como a Laura tinha esquecido o material do inglês dela. Nem me passou pela cabeça qualquer desgraça. Sempre acho que as pessoas são mais esquecidas, burras, do que passíveis de um ato de violência... até porque notícia de desgraça voa.

Dormi muito. Acordei quase oito da noite. Jantei. Tomei banho. Me troquei. Aí liguei pra Laurinha pra passar na casa dela pra buscá-la. Não me atendeu. Liguei pra Ariane que disse ter falado com a Laura e ela já estava a caminho. Justo! Peguei meu carro, liguei o GPS. Passei no mercado. Comprei umas bebidas e fui pra casa da Ariane. Com uma fantasia de quem iria se dar bem naquela noite, desliguei meu celular pra nenhum amigo vir atrás de mim.

Chegando no prédio da Ariane, toquei o interfone:
- Boa noite. Vou no apartamento 92.
- Seu nome?
- Eduardo.
- Ah sim. Pode subir...

"Caramba! Será que tem uma lista de convidados?" - pensei

Toquei a campainha e aguardei. Ariane veio me receber. Mais linda ainda agora, eu comigo sóbrio. Me convidou pra entrar.

- Ué. Tudo bem? Cadê o pessoal, a Laurinha?
- A Laurinha ligou desmarcando e o resto do pessoal não veio.
- E sua tia? 
- O ex-marido dela ligou querendo conversar... e ela, capachona, foi.
- Então~
- ~Então só veio você. Por mim não tem problema. Por você tem? - ela dizendo, já sabendo minha resposta, se virava em direção a cozinha.

Fixaram na minha mente aqueles olhos claros realçados por aqueles cabelos ruivos... Afe! Não tive escolha. Tomamos uns dois drinks. Conversamos bastante. Ela desligou a TV. Não colocou nenhuma música. Abriu a cortina da sala pra luz da lua entrar e sentirmos uma leve brisa. As luzes da sala estavam acesas. Aliás, da casa inteira estava. Nesse cenário claro e estranho, atípico para um romance, ela foi, vagarosamente, despindo todas as minhas fantasias. Rebatia todas os meus questionamentos. Quebrava mais uma e outra máscara minha. Eu tirava lentamente sua roupa de timidez também. Ela levantava para tirar os meus sapatos de superioridade. Abri botão por botão de sua calça de ansiedade. Ela arrancou com violência minha camisa hipócrita. E fomos nos descobrindo.

Ela me fez contar coisas que eu não sabia. Eu queria ser um segredo e ela me revelou.

Logo pela manhã fui até a cozinha preparar um café da manhã pra gente, sem fantasia. No canto da cozinha, perto da fruteira vi os livros da Laura jogados no chão, estranhei, pois haviam ficado no meu carro. Eu tinha certeza!

Quando voltei pro quarto com a bandeija na mão, curioso pra saber dos livros, Ariane estava sorrindo e pulando na cama me convidando pra ir com ela. Sorrimos, nos abraçamos, pulamos, cansamos e dormimos de novo. Exaustos.